As vezes me pego pensando como seriam as coisas se tivesse tomado caminhos diferentes em determinados momentos da vida. Fico imaginando as diversas vidas paralelas que minhas cópias em outros planos poderiam estar vivendo.
Pode parecer um exercício fútil, mas acredito que seja muito proveitoso. Ao comparar a vida concreta com uma possibilidade imaginária, é muito fácil fazer esta realidade imaginária ser a versão mais prazerosa dela. Na versão imaginária não existem problemas, apenas as coisas boas.
Imaginar a vida sem filhos, com todo tempo do mundo para si, com dinheiro sobrando para fazer o que quiser, como viagens internacionais frequentes. Nesta versão não aparece a solidão de estar em locais maravilhosos, mas não ter os filhos para mostrar tais maravilhas. Há apenas o vazio de ver as belezas, sem poder admirar o deslumbre de uma criança vendo aquilo pela primeira vez. O interessante de escolher os caminhos mais desafiadores é que aprendemos as maravilhas que estas escolhas nos trazem. Depois de ter filhos, nunca trocaria a maravilha de sua presença em minha vida, pela egoísta possibilidade de ter meu tempo livre de volta. Até porque, tenho certeza, crescerão livres e independentes. E quando forem viver suas vidas eu ficarei pensando e lembrando, tentando imaginar o que fazer com tanto tempo livre que terei. E tudo que passará na minha mente será a lembrança e a vontade de tê-los novamente ocupando meu tempo e minha atenção.
Isso também é válido para as opções profissionais. Escolher empreender versus seguir carreira acadêmica. Ou passar em um concurso público e garantir um bom salário todos os meses, com a garantia de emprego vitalícia. Também nisso escolhi o caminho menos percorrido. Escolhi o desafio. Não foi fácil o caminho até aqui, e cada dia se apresenta com novos desafios. Por outro lado, as possibilidades são infinitas, não existe teto. Não há limites para onde posso chegar, e há a flexibilidade de escolher a velocidade de cruzeiro a cada trecho da caminhada.
Neste momento caminho mais devagar. Mas uma hora chegará o momento de acelerar. O mundo me espera.
“Nunca é tarde para ser o que você poderia ter sido”. — George Eliot
Sobre as mentiras que contamos a nós mesmos.
O título acima surgiu em minha mente ao chegar na sala para o café da manhã. Acendo o fogo, aqueço a água, preparo o café e venho para uns minutos de Instagram (minha nova ferramenta de trabalho e estudo). Me deparo com a imagem acima. Se tinha dúvidas sobre o que escrever, agora acabou. Abro o editor de textos e aqui estou.
Preciso disso para fazer aquilo. Sem tal coisa não tem como obter tal outra. Preciso viajar e aproveitar a vida antes de ter filhos. Não dá para fazer isso sem muito dinheiro. Não posso largar meu emprego certo para abrir meu próprio negócio. Nunca vou ganhar nada sem ter uma faculdade. Aquele que enriqueceu foi certamente com alguma tramóia. Claro que para ela as coisas são fáceis, casou com um cara rico.
As mentiras que contamos para nós mesmos costumam ser apenas desculpas veladas para não vivermos a vida que desejamos, mas que não temos a coragem de viver. Os motivos podem ser o medo do fracasso, da rejeição dos pares, do que “os outros vão dizer.” Tudo desculpas.
A vida que sonhamos viver está poucos passos adiante, mas não chegará sem darmos os primeiros. O caminho pode ser longo, pode ser tortuoso, mas com certeza é um caminho que vale a pena ser trilhado. Não será um caminho fácil. Podem haver desvios, obras na pista e ser necessário fazer retornos longos no trajeto, mas pode ter certeza, valerá a pena.
Tento evitar mentir para mim mesmo, mas as vezes as coisas estão complicadas em tantas áreas que fica difícil. Não tenho tempo para isso, preciso fazer aquilo antes, esta semana não vai dar. Na seguinte também não. E aqui estou eu, um escritor que não escrevia há muito tempo, acordando mais cedo todos os dias e escrevendo diariamente alguma coisa, nem que seja apenas essa pequena missiva de hoje.
O que você está deixando para depois que deveria estar fazendo hoje. Não tarefas banais, deixa reformular a pergunta: que vida você deveria estar vivendo diariamente, mas não vive porque sempre há uma desculpa para evitar fazer isso?
Quantas vezes você já ouviu isso? Eu ouvi muitas vezes essa frase ou a variação dela, “tenho um amigo que uma vez fez um consórcio…”, ou ainda “uma vez meu pai, lá em 1800 e batatinhas…”.
Todo mundo tem uma história de tropeço para compartilhar. Todo mundo conhece alguém com o casamento desfeito. Todo mundo sabe que não se compram carros franceses porque só dão problema. Sabe a marca FIAT? Isso! Fui Iludido, Agora é Tarde. Não coma gorduras, entope o coração. Minha avó comeu gorduras a vida toda e viveu bem até o tempo fazer seu trabalho.
Meses atrás a Nathalia Arcuri havia publicado um video com o título mais ou menos assim: “Nunca faça um consórcio”, relatando a má experiência que teve. No video ela lamentava a péssima escolha que fez, e realmente era ruim para a situação dela, mas o problema não era o produto, mas sim, a escolha dela para o fim que desejava. Não mate o mensageiro.
Só que o que quero falar aqui não é de consórcio, é mais amplo que isso. É de aprendizado e de onde buscamos ampliar nosso conhecimento. O consórcio é meu veículo, mas a mensagem é mais profunda. Esqueça o fato de que sou vendedor de consórcio por um instante e lembre que só me tornei vendedor depois de anos investindo com os consórcios para meus próprios fins.
Quando você tem dúvidas sobre um assunto, o que faz mais sentido, procurar a opinião de alguém que já viveu a experiência (boa ou ruim), ou consultar um especialista? Se você acha que precisa de uma cirurgia bariátrica, quem você consulta, a amiga que fez e deu certo? A prima que fez e deu errado? Ou um médico especializado? Ou um amigo médico de outra área, mas ainda assim, com conhecimento profundo sobre o tema, não apenas uma experiência individual?
Em tudo na vida é assim. Pessoas têm problemas com tudo, todos os dias. Os tropeços dos outros podem nos ajudar a ver pontos nebulosos e evitar quedas desnecessárias, mas não devem nos fechar para as oportunidades que a vida nos traz, sem questionarmos se nossa situação é a mesma daquela que tropeçou ou não.
E você, que tropeços já deu na vida? E como voltou a correr depois disso?
Pode parecer uma pergunta sem importância, mas a verdade é que vivemos a vida que vivemos a cada dia. Você é o que você faz sempre. De nada adianta querer uma coisa e viver de maneira incompatível com essa coisa. Quero ser uma pessoa saudável; acordo e como chocolate no café da manhã. Quero ser forte; passo os dias no sofá assistindo séries sem fim. Quero ver meus filhos crescer; passo os dias trancado no escritório sem contato com eles. Como você vive cada dia?
Para os mais novos essa pergunta pode parecer fazer mais sentido, pois sempre há primeiros dias novos para eles. O primeiro dia de aula de uma criança. O primeiro dia da faculdade. O primeiro dia no primeiro emprego. A vida dos jovens é uma sequencia de primeiros dias.
Para os mais velhos, no entanto, a pergunta se torna mais importante, pois precisamos lembrar que ainda teremos, todos os dias, o primeiro dia do resto de nossas vidas. E nesse dia, podemos mudar algo que não faça mais sentido para nós. Podemos nos tornar novas pessoas, assim, com o poder de uma decisão.
Lembro da minha adolescência aqui. Em certa época recebemos lá em casa uma intercambista da África do Sul. Não lembro exatamente quanto tempo ela morou conosco, minha irmã é quem mais conviveu com ela, eu ficava mais no meu quarto com minhas coisinhas do que interagia socialmente. Depois de um tempo, lembro bem, ela as vezes comentava: “Fabrício mal humorado”. Leia isso com sotaque inglês para dar a ênfase necessária. Na época não me incomodava com isso, era mal humorado mesmo e estava sempre desse jeito. Mas uns anos depois essa lembrança se tornou incômoda, e certo dia, como por mágica, decidi mudar.
Todos os dias eram um novo dia. E todo dia, quando me pegava ficando mal humorado com algo, ou irritado, me policiava e tentava reverter, ver o lado bom da situação. Em poucos meses era outra pessoa que eu construí. Hoje, as vezes estou cansado e é mais difícil segurar aquele Fabrício da adolescência, mas geralmente é o de hoje que vence a batalha. E se não, amanhã será um novo dia. O primeiro dia do resto da minha vida.
Morar na praia, em uma casa, há poucos metros do mar, pode ser interessante. Principalmente para quem vive uma rotina como a que vivemos, sem empregada, com ambos em casa com os filhos, sem grandes necessidades de sair para jantar fora e coisas desse tipo.
As vantagens para os pequenos são gigantescas. Estávamos sem TV. Mesmo o iPad disponível não era páreo contra passear para procurar as corujas com o baixinho. Nem contra brincar na areia ou andar de bicicleta com a baixinha. Manter distância social é mais difícil para eles, mas as atividades ao ar livre e o cuidado do grupo ajudavam a minimizar os riscos.
Dormir mais cedo era relativamente fácil. Acordar cedo idem. Andar sob os ciclos do sol é melhor do que dormir tarde e acordar tarde. Com a energia de um dia correndo, brincando e se divertindo, a noite também chegava mais tranquila.
Haveriam dificuldades no dia a dia retornando ao normal, claro. Sol, areia e mar competindo contra as aulas online é covardia. E quando tudo voltar ao normal, não há como comparar as opções de escola daqui com as da praia, então não é uma opção válida para longo prazo.
O que esta experiência proporcionou, no entanto, foi a ideia de pensar a respeito das possibilidades de mudar para uma casa na cidade. Apesar de morarmos em um prédio com uma floresta preservada como jardim, termos acesso a tudo próximo, o simples esforço de pegar as bicicletas lá no fundo, descer de elevador e depois fazer todo o caminho inverso para guardar as coisas já torna tudo mais arrastado. Uma casa com quintal resolve tudo isso, está tudo ali pronto para uso, ao alcance das mãos. O mesmo vale para o espaço de pintura sempre pronto para usar. E o cantinho dos brinquedos. E a piscina.
No meu caso particular, um escritório dentro de casa, ou ainda melhor, em um anexo pequeno nos fundos do quintal, seria uma maravilha. Poder trabalhar em silêncio quando necessário, mas ao lado o tempo todo. É ainda melhor que a solução atual com o escritório a uma quadra daqui.
Sonhar não custa nada. É sonhando que desenhamos o que desejamos para nosso futuro. Um dia por vez, chegamos lá.
Na pandemia isso se tornou ainda mais evidente. Você acorda, lava o rosto, esvazia a bexiga e vai para cozinha preparar seu café. No meu caso, preto, passado no filtro de papel. Toma suas vitaminas, come alguma coisa (eu costumo fazer jejum pela manhã).
Começo o trabalho antes do resto da casa se levantar. Aqui escrevo um destes textos do #desafiodos30textos neste momento. É um bom exercício para o cérebro ter que pensar em uma nova ideia diferente todos os dias. Meu exemplo disso é o Seth Godin, há anos com esta prática diária, mas posso citar também o Steve Pavlina, um cara hiper-produtivo que também costumo ler.
Atendo meu sogro neste momento com o café da manhã. Está passando uns dias aqui conosco enquanto minha sogra está hospitalizada. Se todos os dias são iguais, todas semanas as vezes têm alguma diferença entre elas.
A filha acorda, providencio o café da manhã. O filho e a esposa levantam, brinco com o pequeno enquanto a mãe providencia a comida para o baixinho. Lava olho do bebê, abre as janelas da casa, trabalha mais um pouquinho, limpa a mesa, prepara o almoço, recolhe tudo para pia, brinca com a filha ou trabalha enquanto ela assiste TV e o filho faz a soneca.
Todos os dias parecem iguais. Todos os dias não são iguais. Um dia o bebê que ainda pede para o colocarmos no banco da bicicleta sai pedalando sozinho. No outro a filha mergulha sem querer na piscina e descobre que é possível, pedindo para entrar na natação para aprender melhor. Uma palavra nova aparece na boca do bebê. Um amigo telefona e avisa que estão grávidos. Uma carta de consórcio é contemplada pelo sorteio (você sabia que eu iria conseguir falar disso aqui, não sabia?)
Aproveite as pequenas diferenças de cada dia. Eles podem parecer os mesmos no meio deste caos que estamos vivendo, mas sempre há uma pequena fagulha que torna cada dia único. Viva bem o seu dia de hoje. E também o de amanhã.
Sério, ontem entrei no tal ClubHouse. Enquanto no Twitter o algoritmo jogava para cima as pouquíssimas pessoas que sigo lá por outros motivos que estavam falando do BBB, ou do Super Bowl, eu lavava a louça escutando uma conversa com o Bernardinho sobre liderança.
Tive que ir ao hospital também (não eu, como acompanhante). No caminho, em vez das músicas de sempre, deixei lá aberta uma das salas onde estavam conversando sobre influenciadores, marcas, agências de marketing. Uma aula em poucos minutos.
Logo nos primeiros minutos em que testei o aplicativo, o Ladeirinha, expert no lançamento perpétuo de produtos digitais, falava em uma sala na qual não permaneci mais de cinco minutos. A vida está corrida, duas crianças pequenas, louça na pia, chão para varrer, sogro aqui em casa, sogra no hospital e ainda tenho a pretensão de trabalhar e escrever esses tais de textos diários no #desafiodos30textos. Teria ficado mais tempo, se pudesse. Mas esses cinco minutos foram o suficiente para um insight que com toda certeza vai me trazer muito resultado no futuro próximo.
Então, dane-se que um é um chorão no BBB, pobre menino malvado por ter nascido com o sexo masculino. Dane-se que uma é imbecil e malvada. Dane-se que um é cabeça de vento e se envolve com gente ruim. Dane-se a vida de quem não acrescenta nada para você e sua existência. Tanta gente boa ensinando tanta coisa legal aqui pelo Instagram, no YouTube, e agora no #ClubHouse, que realmente não entendo quem perde tempo poluindo a vida dos outros comentando sobre BBB.
Nada como um tempo para descansar a mente, para fazer nada, para desopilar, mas sério, fazer isso com BBB? Tanto livro bom para ser lido, tantas séries para serem assistidas, tanta arte a ser feita. Pega um lápis de cera e fica rabiscando num papel qualquer. Tenho certeza que sairá algo melhor do que os comentários sobre o BBB que vemos por aí.
Eu sempre quis ser pai. E desde muito cedo queria ser pai de menina. Ainda criança, no prédio para onde mudei pouco antes de completar 10 anos, era um dos poucos que estudava de tarde na minha faixa etária, então os amigos com quem brincava no fim do dia e nos fins de semana normalmente não estavam por ali pelas manhãs.
Tinha uma bebezinha pequena lá no prédio, a Fernandinha. Foi minha primeira bonequinha. Pra falar a verdade, não lembro direito do que brincávamos, mas lembro que ia sempre lá ajudar a cuidar dela.
No mesmo andar do meu tinha o Guga. Se parar para pensar, ele nem é tão mais novo que eu agora que ambos somos “velhos,” mas naquela época, cinco ou seis anos eram a diferença do dobro da idade. Treinei também com ele meus instintos paternos. Acho que com um ou dois anos mais em relação à época da Fernandinha minha memória de pré-adolescente já ficou mais gravada do que a de criança, com ele lembro que brincávamos com pecinhas de montar, Hering-Rasti.
A vida já tinha me presenteado com uma irmã menor, mas com menos de dois anos de distância, não deu tempo de eu ser grande o suficiente para cuidar dela ainda bebê. Então chegou a Mirella, minha irmãzinha caçula. Cresceu uma linda menina, e não é pra me gabar, porque o mérito é todo dela, mas ela mesma faz questão de agradecer certas influências, como minhas fitas cassete que costumava escutar. Hoje sou eu que sou apresentado às novidades por ela.
E então, chegando nos 41, minha esposa traz o maior presente que a vida poderia trazer, a Isabella. Naquele momento, o dia mais feliz da minha vida, onde não conseguia mais parar de chorar, nascia um novo Fabricio. Um Fabricio que achava que sabia o que era amar, sempre emocional antes de racional, foi tomado por uma explosão no coração que não conseguia explicar. O amor de pai, só descobri naquele segundo em que minha filha nasceu. Que surpresa maravilhosa sentir tudo aquilo. Acordo todos os dias pensando em ser uma pessoa melhor, não porque já não fizesse isso antes, mas agora, por também saber que ensinamos pelo exemplo, não com palavras. É difícil, ainda tenho muito a melhorar, mas a cada dia é um novo aprendizado e a cada dia é mais uma tentativa de ser um bom pai.
Quase sete anos depois chega o Leonardo. Achava que já estava calejado, que já sabia como seria. Ledo engano, no dia do nascimento dele, de novo o turbilhão de emoções. Aquele bebezinho lindo saindo de dentro da mamãe, igualzinho à irmã de uma maneira incompreensível, se não são as datas nas fotos ou as roupas, não sabemos quem é quem. E então tive certeza de que nasci não apenas para ser pai de menina, mas também pai de menino.
Agora com dois, com uma boa distância entre eles, e com temperamentos bastante diferentes, o desafio é ainda maior. O aprendizado agora é de como amar de forma diferente, pessoínhas diferentes. De como dar a cada um não o mesmo, mas sim, o que cada um precisa do seu jeito particular. Tudo que aprendi com a Isabella não é válido para o Leonardo de forma automática. Sim, ambos foram os bebês mais beijados e segurados no colo deste mundo. O Leonardo ainda está nesta fase. Com a Isabella o tipo de atenção necessária é diferente. Ainda estamos aprendendo, como acredito que estaremos até o fim da vida. Porque uma coisa é certa: sempre serão nossos bebês, não importa a idade que tenham.
Ao me tornar pai, entendi meu pai. Ao me tornar pai, acho que entendi minha mãe. Ao me tornar pai, espero ser um melhor filho, um melhor marido, um melhor irmão, um melhor genro, um melhor tio, um melhor padrinho, enfim, uma melhor pessoa.
Desde que me tornei pai, todos os dias são de aprendizado. E estou aqui me esforçando de verdade para que consiga atingir o meu melhor frente à minha família e comunidade.
Obrigado por estar comigo nesta caminhada. Sua amizade é muito importante nesta história toda.
Os sonhos já vinham de longa data, mas o passo definitivo veio em 95 quando, junto com o Atsu, abrimos uma empresa cada um. Eu era sócio com 1% na empresa dele. Ele era sócio com 1% na minha. Esse era o esquema para abrir uma empresa LTDA em que o número mínimo de sócios tinha que ser dois, em uma época em que não existiam empresas EIRELI e acredito que nem mesmo ME. Pensando no assunto com a cabeça de hoje, imagina se um de nós tivesse construído um Google da vida e o outro navegasse tranquilamente com 1% dos resultados. Não teria do que reclamar, nem se fosse eu que tivesse construído isso, nem se fosse ele.
A questão é que não construímos um Google, mas muito antes deles começarem, fizemos algo ainda melhor para nós mesmos. Ainda era 1995 e acessar a internet era uma coisa complicada. Não existia Net, Virtua, redes WiFi em tudo que é lugar. Não existiam redes WiFi, para falar a verdade. Alguma das opções envolviam discar para um servidor da universidade, normalmente usando uma conta de algum amigo professor que emprestava a conta sem nem saber direito para quê. No servidor rodávamos um programa que “abria a rede” e, com outro programa rodando em nosso próprio equipamento, conseguíamos conectar.
Tudo isso já era melhor do que tinha sido uns anos antes, onde o acesso se dava somente por texto, com comandos crípticos que levavam a informações esparsas que podiam ser baixadas para o computador central, lidas exaustivamente e no meio disso, encontrávamos pepitas de informação interessante, como o texto completo do livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias.”
Voltando ao começo, em 1996 já existiam maneiras um pouco mais simples de acessar a internet. O primeiro navegador, o Netscape, tinha sido lançado, e os programas de conexão haviam ficado um pouco mais simples de utilizar, com protocolos de comunicação que permitiam, no Windows 3, conectar e navegar em um ambiente integrado. Só havia um problema: não existiam provedores de acesso à internet aos quais poderíamos nos conectar.
O primeiro disponível aqui em Porto Alegre foi a Conex. Disponível é uma palavra forte. Existiam, mas eram um projeto de alunos da UFRGS. A conexão se dava com um computador da universidade inicialmente, e quando transformaram o projeto em empresa e abriram para o público as coisas não se tornaram melhores muito rápido.
Fomos lá nos informar. Havia uma lista de espera para podermos nos tornar clientes. Estávamos lá pelo número 3000. Estavam conseguindo atender por volta de 300 pessoas novas por mês. Nem pensar esperar mais 10 meses para podermos ter nossa conexão. A solução foi imediata, vamos montar nosso próprio provedor de acesso à internet!
Mais fácil falar do que fazer. Uma conexão dedicada de 64Kbps custava mais de R$ 2000 mensais (alguém aí calcula o quanto dá isso em valores de hoje). Para poder atender clientes precisávamos ainda de linhas telefônicas, impossíveis de adquirir na época. Teríamos que alugar, e custavam caro. Alugamos 30 linhas. Equipamentos, roteador, placa multi-serial para ligar os modems no computador central, o servidor principal, servidor secundário, computadores para podermos trabalhar, sistema de cobrança, integração com o banco para emissão dos boletos. Nada disso existia pronto como é hoje, tudo precisava ser feito do zero. Olhando para trás, é divertido ver o quanto evoluímos. Hoje me sinto como os exploradores do oeste, quando não existia nada além da costa.
Juntamos alguns amigos, e em seis, com um vendendo o carro, outro juntando as economias, outro trabalhando e trazendo dinheiro mensalmente para fechar sua cota, um configurando, outro desenhando, outro escrevendo e no final de poucas semanas tínhamos a empresa rodando, com propaganda no jornal e tudo mais. Quinhentos clientes logo de cara. Muito mais demanda do que oferta.
Bons tempos aqueles. Uma época bem diferente de hoje. Tente imaginar, por alguns minutos longos, como seriam seus dias sem telefone celular. Agora, imagine o seu dia sem a internet. Descrevi como fizemos para resolver nosso problema de conexão à internet, mas para falar a verdade, não havia muito o que fazer na internet naquela época. Era tudo mato! E a gente lá, com pás, picaretas, tentando desbravar esse novo mundo e explicar para as pessoas incrédulas, o quanto a internet iria mudar o mundo dentro de alguns anos. Parece que foi ontem, e foi, mas lá se vão quase 30 anos. Há uma geração inteira de jovens trabalhadores que nunca viram o mundo antes da internet. Fico imaginando como será a geração posterior à colonização da Lua, ou de Marte, gente que nunca imaginou que se vivia apenas na Terra, sem naves espaciais particulares, sem espaçoportos.
Escrevendo isso hoje, penso nas leituras que fiz do Hemingway. Não me comparando com ele, óbvio, mas lembro vividamente de ler sobre os dias dele em Paris, das rotinas, de buscar madeira para a lareira, de subir lances de escada até os apartamentos mais altos (e de aluguel mais barato), de uma vida sem ar condicionado, com piores condições sanitárias bem descritas em suas páginas. Nas doenças que já foram erradicadas com a descoberta de remédios e vacinas.
O começo da minha vida de empreendedor foi assim. As mudanças aconteceram com tal velocidade que é difícil de explicar para quem não viveu aquela época. E mesmo quem viveu de fora, apenas usufruindo de tudo que a internet nos trouxe, consegue lembrar de uma época em que nada disso existia. Mandar cartas, aguardar dias para chegar e não saber quando teríamos uma resposta. Telefonemas internacionais eram praticamente impossíveis e inviavelmente caros. Mandar um filho para intercâmbio e não saber se já tinham feito a primeira conexão no voo, a segunda conexão, se já tinham passado pela alfândega, imigração. Hoje não apenas temos tudo isso em tempo real, como ainda temos fotos de cada etapa da viagem. Isso quando não temos as mensagens chegando de dentro mesmo do avião.
Imagina bater uma foto e só ver o resultado alguns meses depois, quando finalmente acabasse o filme de 36 poses e mandássemos revelar. Muitas vezes nem lembrávamos onde tínhamos batido aquelas primeiras fotos, meses antes. Sim, porque a paixão pela fotografia também passou por uma revolução ao longo da minha geração. Os jovens adultos de hoje não sabem o que é viver em um mundo menos documentado, onde uma foto era um evento. Mas isso é papo para outra hora, vou ficando por aqui.
Esses dias li um artigo, acho que na ‘The Atlantic’ que falava da extinção de diversas formas de amizade causada pela crise da Covid. Com toda a história do ‘fique em casa’, do ‘use máscara’, acabamos perdendo uma série de interações sociais que de tão normais antes, nem dávamos bola, mas que hoje, com o mundo como está, acabam se mostrando muito importantes e fazendo falta para a maioria das pessoas.
São os vizinhos do prédio que nem conhecemos direito, mas com os quais temos a cortesia de um bom dia ao cruzar no elevador. Hoje essa cortesia pode ter sido substituída por um olhar de “já tem gente dentro, fica na tua e espera o elevador voltar vazio.” Ontem mesmo uma vizinha enviou na lista de WhatsApp do prédio uma pesquisa mostrando a importância dos aerosóis na transmissão da doença e indicando esse tipo de atitude. Se fiz isso uma ou duas vezes no início da crise, ainda quando as informações eram insuficientes, foi muito. Atualmente tenho entrado nos elevadores com os vizinhos, sempre de máscara todos, mas sabendo que estamos juntos lutando para isso tudo acabar logo. Claro que evito fazer o mesmo quando eventualmente vou ao supermercado, por exemplo, mas e assim, vamos adaptando.
Outra classe de amizades que não costumamos prestar atenção são os diversos atendentes que costumam se repetir nos nossos dias. De muitos, nem sabemos o nome. Alguns sabemos o apelido. Todos, no entanto, costumavam nos ver diariamente, nos atender com um sorriso no rosto. Perdemos esses sorrisos, mesmo que tenhamos aos poucos tentado retornar a antigos hábitos. Eu ainda não voltei a frequentar cafeterias como sempre fiz antes disso tudo começar. A Valkiria, cafeteria próxima em que costumava marcar algumas reuniões, fechou.
Em seguida reabriu uma nova cafeteria no mesmo local. Dei um oi para os novos donos certo dia, da rua mesmo, à distância, enquanto passeava com meu bebê ali pela frente. Desejei boa sorte, mas pensei comigo mesmo o que tem na cabeça alguém que abre uma cafeteria nova em um momento de lockdown. Já tendo assistido o início e fim de um negócio desses de amigos que tentaram em outros tempos, sei das dificuldades mesmo em tempos normais.
Nessa cafeteria encontrava seguido o amigo Renato, colega de faculdade. Essa é outra forma de amizade leve que acabamos perdendo, pois tirando os poucos que temos em grupos de Facebook ou listas de WhatsApp, os outros só víamos mesmo nestes encontros casuais. Não vejo o Renato há algum tempo, e sem nosso café frequente não sabia quando o veria novamente. Pensei nele lendo o artigo. Ontem, ao publicar o primeiro texto deste desafio de 30 dias, o vejo lá na lista de quem deu like. As verdadeiras amizades, leves ou diárias, são mais fortes do que uma merda de pandemia qualquer.
Também são mais fortes que o tempo. Ontem aconteceu uma coisa curiosa, coisa de um segundo. Na saída do Zaffari, em um olho no olho que durou apenas uma fração de segundos, eu e a Adriana nos reconhecemos, pelos olhos que já se conhecem há mais de 40 anos, os mesmos olhos que cresceram juntos no colégio de freiras, eu o irmão mais velho, ela a amiga da irmã. E nesta fração de segundos por trás de máscaras, dissemos um ao outro: “oi, estamos aqui, isso tudo vai passar.”
Há ainda os completos desconhecidos, aqueles de quem realmente não sabemos nada da vida, dos desejos, dos anseios pessoais. Gente com quem cruzamos diariamente nos caminhos que costumávamos fazer. Pode ser o motorista do ônibus, o cobrador de sempre. O porteiro do prédio que não mais frequentamos. São pessoas importantes na nossa vida, se não para longas conversas, ao menos para alinhavar os períodos do dia.
Tenho um amigo leve destes no zelador do 222, próximo aqui de casa. Todos os dias passo por ali passeando com meu bebê. Ele já acena de longe ao nos ver. Chegando mais próximo já avisa que hoje não ligou o chafariz grande, pois o vento forte faz a água molhar toda calçada. Mas os pequenos estão ligados, como sempre, e sigo para lá com o bebê em seguida apontando para o lado onde iremos encontrar o segurança do próximo prédio, na entrada do estacionamento, quando subimos e descemos a rampa para tornar nosso passeio diário mais divertido.
Vemos muita gente nesse caminho. Os mendigos do muro grande não estão mais lá há bastante tempo. Estes, minha filha costumava dar oi nos passeios de bicicleta com o pai correndo atrás para acompanhar. Se estes não estão mais lá, o pessoal do corte de cabelo está, e de trás do vidro acenam para o bebê que está olhando para o enfeite giratório colorido que tem na fachada.
E no seu dia, quem são os amigos leves ou invisíveis que você tem sentido falta?