pé ante pé

Pé ante pé.

Pé ante pé ela vai até o banheiro fazer o xixi da manhã. Ouço os sons da cama e dos passos, mas não a vejo, passa rapidamente em um piscar de olhos.

Deitado entre dormindo e acordado escuto a porta do banheiro fechando, o rosto sendo lavado. A luz sendo apagada e a porta sendo aberta de modo a não ter claridade.

Pé ante pé ela fecha a porta do meu quarto. Meus olhos estão abertos, mas ela não sabe disso no escuro. Ouço a porta da sala abrir. Levanto devagar.

Minha vez agora, xixi, rosto lavado, roupa trocada.

Chego na sala e lá está ela, sentada no sofá, comendo bolachinhas V, assistindo o desenho dos dragões. Minha menina está crescendo, o tempo está passando.

Páscoa

Esses são os personagens das minhas páscoas.

Minhas lembranças das páscoas da infância são legais.

Não apenas por procurar ovinhos e cestinhas escondidas pela casa ou pelo jardim, nas vezes em que passávamos o feriado na praia, mas por lembranças bem específicas e únicas.

A mãe fazia (e ainda faz) ovinhos recheados de amendoim doce. Não ovinhos de chocolate, nem de plástico, mas ovos de galinha, decorados por ela mesma com carinhas, coelhinhos e personagens.

Sabe aquela história de que para fazer omelete é preciso quebrar os ovos? Nem sempre. As vezes basta um furinho em baixo.

Coelhos, índios, chineses e palhaços habitam minhas lembranças de infância.
Índia
Muitos coelhos

Das coisas que faço todos os meses

Das coisas que faço todos os meses.

Ou um pouco de como me organizo.

Sempre no último dia do mês, ou primeiro do mês seguinte, faço o balanço do patrimônio. Tenho uma planilha onde jogo todos os números, saldos de contas corrente, investimentos em fundos, ações, ouro, moedas fortes, criptoativos, etc. Nesta planilha as coisas estão agrupadas em tipos de investimento, então no final tenho um gráfico de pizza com os percentuais de cada fatia. No final do processo, imprimo tudo em uma página e colo na minha agenda de papel. Se um dia os computadores deixarem de existir, o papel permanece. Ou como escreveu certo presidente: “verba volant scripta manent”.

Tenho meus compromissos com data e hora agendados no celular, com alarme sempre para uma hora ou trinta minutos antes. Esses tremem no meu pulso com o Apple Watch, uma das melhores aquisições que já fiz de trecos tecnológicos. Esse relógio me permite evitar precisar pegar o celular em incontáveis situações. Para quem trabalha com as telas como eu, toda vez que dá para responder algo ou ter alguma notificação apenas com o levantar do pulso é uma dádiva.

Ainda assim, todos os compromissos estão também na agenda de papel. E se no momento meu espaço de trabalho está meio restrito, na situação ideal esta agenda está sempre aberta na página da semana em andamento, junto com um calendário mais amplo, de vários meses, na parede próxima de onde trabalho. O que vemos sempre, não esquecemos.

Este ano minha agenda é um simples caderno sem pauta. Desenho eu mesmo os espaços semanais, as vezes ocupando uma página para a semana, as vezes duas. Gosto de agendas com uma página por dia, tem espaço para rabiscar, desenhar e escrever com letras grandes os compromissos importantes, mas nesse período que estamos vivendo os dias tem sido muito iguais, o caderno que comecei no ano passado ainda entrou e durará até o final de 2021. Será minha agenda bi-anual.

E você, tem alguma coisa que cuida todos os meses, que não faça parte da sua rotina mais frequente?

O que você faz todos os dias é quem você é.

O que você faz todos os dias é quem você é.

E isso muda com o tempo. Muda o tempo todo.

Lembro de uma época em que tínhamos um apartamento bem maior. Cada um com seu próprio escritório neste apartamento. Acordava cedo, saía para uma caminhada de 2Km, voltava, tomava meu banho e estava pronto para o trabalho.

Escrevia, respondia os clientes, almoçava diariamente com minha esposa. As vezes passeávamos juntos durante a tarde, as vezes voltávamos para o trabalho.

Viajávamos para o exterior todos anos. As vezes duas vezes por ano. Por longos períodos.

Eu era um empreendedor de sucesso. Financeiramente independente, bem casado, descansado e feliz.

Hoje passo os dias em casa. Continuo acordando cedo. Não faço a caminhada logo quando acordo, escrevo estes textos. Sou um escritor. Tenho livros publicados. Tomo meu café. Em seguida a filha acorda, preparo o café dela. Vemos uns desenhos juntos. Ela vai brincar no iPad e volto a trabalhar.

O filho acorda. Brinco com ele enquanto a mamãe prepara o café da manhã dele. Tomo meu banho enquanto ele come. Saímos nós dois em seguida para passear. Meus 2Km continuam, ganharam um companheiro para toda a vida. E um saquinho de batatas para carregar de vez em quando, hoje são 12Kg de pura fofura.

Voltamos para o almoço, mais brincadeiras. Entre um brinquedo e um colo, entre uma fralda e um copo d’água, vejo o trabalho no celular, no iPad, no computador. O que for mais rápido e prático. Respondo um email. Um WhatsApp. Um direct no Instagram. Fechei uma venda. Aviso em casa, comemoramos. Acompanho a aula online da filha. Anoto o tema do dia seguinte, caso ela esqueça. O bebê vai fazer a soneca com a mamãe, quando acordar recomeça tudo novamente. Talvez não tenha muito trabalho essa tarde, lavo a louça enquanto a filha faz o lanche.

Sou um empreendedor de sucesso, bem casado, geralmente cansado e feliz, muito feliz. Sou pai de duas crianças lindas que tornam todo o cansaço do dia suportável. Que fazem meus dias mais alegres a cada pequena conquista. A cada palavra nova aprendida. Cansa, mas como é bom.

O trabalho não tem horário.

Consigo entender sutilmente a necessidade de horários fixos para algumas coisas. Saber que das 10h às 16h podemos ir ao banco que encontraremos as portas abertas. Saber que a padaria abre antes da nossa necessidade do pão quentinho. Só não entendo o apego excessivo das pessoas em tentar colocar horário em tudo.

Ontem escrevi que domingos para mim são como outro dia qualquer. Não que eu não descanse no domingo, faço, nem que seja porque algumas coisas estão fechadas mesmo e não teria como fazer diferente. Não posso levar um filme para revelar, agendar uma consulta médica ou coisas desse tipo num domingo.

Os horários, para mim, funcionam como os domingos. Não há problema em estar trabalhando às 3h da madrugada em um dia que esteja com insônia. Ok, pode ter esse tipo de problema hoje, com filhos pequenos e a situação de que se não tentar voltar a dormir o dia seguinte poderá se tornar um grande arrasto, mas fora isso, não haveria problema.

Tenho a sorte (que eu plantei lá atrás) de poder trabalhar de onde quiser. E mais, de poder trabalhar quando quiser. Se não estou a fim de fazer alguma coisa hoje pela manhã, dificilmente isso gerará grandes problemas futuros. Só terei que fazer um pouco depois. Claro que as vezes a realidade atropela os horários e a vontade.

Quando tinha meus servidores de internet, as vezes um problema causava a parada do serviço de diversos clientes. Aí, o trabalho não ter horário significava justamente que tinha que trabalhar, ‘no matter what’. Incêndio tem que ser apagado na hora.

Com os consórcios os incêndios são bem menos frequentes. As decisões são mais lentas, mais bem pensadas. Esperar um dia para responder um email pode ajudar a cristalizar melhor uma ideia e evitar um erro.

Mesmo assim, as vezes há urgência. Não responder é largar o cliente para o concorrente que respondeu mais rápido.

Então “o trabalho não tem horário” pode trazer a liberdade de passear tranquilamente todas as manhãs com o filhote. Porém, pode trazer também a necessidade de “largar tudo para resolver isso agora”.

Como é sua rotina, seu trabalho?

Domingo

Escorregador na entrada da casa, temos.

Domingo para mim sempre foi um dia como outro qualquer. Talvez por ter tido a sorte (ou ter feito essa boa escolha) de sempre ter trabalhado com o que gosto, nunca “precisei” de um dia para “descansar”.

É engraçado para mim ver as pessoas falando sobre este desafio que o planeta está passando e de como o trabalho em casa tornou todos os dias iguais, porque faz pelo menos 12 anos que vivo exatamente esta rotina. Por escolha própria.

As vezes tenho alguns inconvenientes, como ter uma boa ideia para discutir com alguém e me lembrar que nem todos vivem como eu vivo. Me seguro, anoto a ideia e deixo para ligar na segunda-feira. Tem dias em que a pessoa com quem quero tratar do assunto tem uma vida parecida, então domingo vale como dia comum.

Só não pense que porque não dou ênfase no “dia de descanso”, que não tenho meus domingos. Pelo contrário, tenho sete domingos por semana.

Quando acabo de tomar meu café da manhã e os filhos já estão alimentados, não importa o dia da semana, é meu domingo de passear na rua com os filhos. As vezes só vai um, as vezes só vai outra, mas diariamente tenho esse longo intervalo com eles. Meu domingo é intercalado na semana inteira.

Quando à tarde as tarefas diminuem por já terem sido resolvidas mais cedo, começa meu domingo. Se neste momento não dá para ir em uma pracinha, que seja então dentro de casa.

Quando em uma quarta-feira o dia está quente, é piscina com as crianças. Se o trabalho chegar enquanto isso, uns minutos não farão diferença relevante, e se diferença fizerem, com o celular mesmo já resolvo a questão debaixo do sol mesmo.

Então hoje é domingo, e aqui estou escrevendo enquanto as crianças acabam seu café da manhã. Não é porque não me faça diferença que eu não tenho domingos, mas porque trabalhei para tornar isso possível que tenho, não só domingos hoje, como também todos os mini-domingos durante a semana.

Os consórcios me proporcionaram isso, primeiro como meu investimento pessoal, depois, com a internet que eu ajudei a começar no Brasil, como vendedor.

Bom domingo para você.

Saudades de uma viagem

Las Vegas – LOVE

Não sei como vão ser as coisas deste dia em diante. Quanto tempo tudo voltará ao normal, se é que teremos de novo uma vida como a que tínhamos anteriormente.

Por mais que possamos pensar que logo as vacinas estarão funcionando, todos estarão imunizados, o mundo voltará a ser como era antes, a grande verdade é que o futuro é nebuloso. As vacinas podem não proteger de novas cepas. A proteção pode não durar muito tempo. Novas cepas podem surgir, bactérias mais resistentes podem atacar por conta do uso indiscriminado de antibióticos. As vezes é difícil ser otimista.

Por outro lado, a vida continua. Não podemos esmorecer. Há muito para ser visto e vivido ainda, senão por todos, com certeza para muitos. Conseguir equilibrar vida e neuroses vai ser o exercício dos próximos anos.

Por aqui, sinto saudade de viajar. Organizei nossa vida desde o princípio para poder ter essa liberdade geográfica no trabalho. Antes da baixinha começar o colégio, podíamos simplesmente decidir um destino, pegar um avião e ir. Com o colégio as janelas de oportunidade diminuíram, mas ainda assim havia como dar uma escapada no meio do ano ou no final.

Nossas viagens, em parte por conta da alergia alimentar da baixinha, sempre foram mais longas e hospedadas em flats com cozinha. Isso nos colocava na vida mais cotidiana do local, não no simples turistar. Ir ao supermercado, frequentar as pracinhas próximas, museus, parques. Era sempre um test-drive de “como seria viver aqui.”

Não tínhamos intenção real de morar nesses lugares. Sabemos que NY é sensacional na primavera e ótima no outono, mas os invernos terríveis. Vale o mesmo para a maioria das cidades européias, somos uma família de verão. Mas como forma de viagem, gostamos muito do tipo de experiência que as nossas proporcionavam.

Sinto falta de ouvir uma lingua diferente ao passear nas ruas. Ver as crianças brincando igual em qualquer parte do mundo. Experimentar os sabores de cada local, os pequenos comércios, as cafeterias.

Sinto falta de viajar. Estar fora da nossa rotina era o que me ajudava a ver como gosto dela sempre que voltava.

Hoje não terei mais um bebê em casa.

Último dia de bebê.

Calma, nada acontecerá com o bebê em si.

Hoje ele completa dois anos e deixa de ser oficialmente um bebê e se torna um menininho. A grande verdade, no entanto, é que nunca deixará de ser meu bebê, assim como a irmã dele, com quase oito anos, não deixou de ser minha bebêzinha.

Essa idade é acompanhada de muitas novidades, principalmente na fala. A língua destrava, as palavras que antes eram tímidas se tornam abundantes e algumas vezes já vem compostas com outras palavras.

Aqui em casa falamos duas línguas: português e bebezês. Para quem não conhece pode parecer difícil, mas para nós que aprendemos junto com ele e participamos do desenvolvimento todo da nova língua, é como falar qualquer outra língua estrangeira.

Uma palhinha:

moomm – polenta.
mômmm – vermelho.
i iiia – Isabella.
bububáá – celular.
todish – Toddy.
vê – leite.
a bii – abrir.
bêê – Massa de letrinha.

A diferença dos dois é impressionante. Nada daquelas coisas de menino e menina (sim, isso também). Sei que isso muda com a idade, mas enquanto ela está na fase do “alcança pra mim, me traz uma água, faz isso, me ajuda com aquilo”, ele está na fase de querer fazer tudo sozinho, desde abrir a própria fralda até colocar as roupas e sapatos.

O amor de um pelo outro é lindo de ver. Claro que as vezes tem ciúmes e um querer o brinquedo do outro, mas o cuidado de ambos um com o outro aquece o coração. As gentilezas dele, de sempre pegar algo e oferecer para ela antes, por exemplo. Inclusive com chocolate!

Hoje não terei mais um bebê em casa, mas até o fim dos meus dias terei sempre meus dois bebês no coração.

Feliz aniversário, meu filho. Papai te ama mais que tudo neste mundo.

Café e ansiedade

Meu café preferido, versão sem ansiedade.

Não deve ser novidade para quem tem ansiedade crônica, mas as vezes mesmo nós, esquecemos das coisas em nome de um pequeno prazer.

Há poucos anos fiz uma experiência sem querer.

Estávamos passando uma temporada em Las Vegas e no flat em que ficamos forneciam sachês de café na recepção. Não sou tão esnobe assim com o café para me dar o trabalho de buscar um especial quando tenho um bastante bom a disposição, e o que ofereciam lá gratuitamente era realmente muito bom.

Aconteceu que geralmente só tinham café descafeinado, ou tinham os dois, mas proporcionalmente bem mais do descafeinado. E assim fui, por uns 20 dias, diminuindo gradativamente a quantidade de cafeína ingerida diariamente.

Não tínhamos o bebê ainda, então as coisas eram menos corridas do que são hoje. A diferença que notei na época, graças ao Apple Watch, foi que meu sono subiu das 6h habituais para 8h todas as noites. Isso durou um tempo depois do nosso retorno, mantendo o descafeinado por mais um tempo.

Corre dois ou três anos para frente, e aqui estou, com um bebê, uma filha de sete anos, os ciúmes naturais entre irmãos, a falta de sono crônica, todos os problemas da casa e trabalho acumulados e ainda uma pandemia que não nos dá as liberdades de gasto de energia que teríamos normalmente para as crianças. Terror para o ansioso aqui. E motivo para eventuais gritos e brigas para ter as coisas feitas, como escovar os dentes, se vestir, etc.

Reiniciei o processo de cortar a cafeína. Não dá para fazer de um dia para o outro, os sintomas de abstinência são terríveis. Semana passada concluí o último pacote de café cafeinado aqui de casa. Com direito a dor de cabeça angustiante dois dias atrás.

Há quatro dias não há discussão, não há problemas que não sejam resolvidos com calma. Não há crise de ansiedade, palpitações. Descobri ainda que meu acordar seguido à noite para fazer xixi também podia ser devido ao sono mais leve do corpo com cafeína, tenho dormido a noite inteira (fora as interrupções eventuais da minha pequena sonâmbula).

Gosto do hábito do café, mas agora aqui, só descafeinado.

Um pouco sobre mim.

Sempre fui experimentador. Kits de química, revelação de fotos, circuitos eletrônicos… gostava de aprender como as coisas funcionavam.

Lembro com bastante clareza que desde cedo gostaria de ter meus próprios negócios. Dezenas de cadernos com meus rabiscos e planos. Eram editoras, estúdios fotográficos, laboratórios de revelação, escolas de informática. Até uma rádio pirata coloquei no ar ainda adolescente, com transmissor montado por mim.

Ao mesmo tempo, sempre fui muito tímido. Daqueles que tiravam 10 no trabalho escrito para poder zerar a parte da apresentação e ainda assim ter nota para passar.

Curiosidade, tecnologia e timidez formam uma combinação interessante. A faculdade de informática foi o caminho natural.

Juntando o desejo de ter minha própria empresa, a busca pela inovação e a formação em computação, o resultado disso tudo foi iniciar a internet comercial aqui no Brasil. Com mais cinco amigos, abrimos um dos primeiros provedores de acesso à internet do país em 1996.

Paralelo a tudo isso tive o exemplo do meu pai ao longo de toda minha infância e adolescência. Com a curiosidade natural de criança sobre o mundo dos adultos, acompanhava as vezes o pai em seu trabalho como economista no Banrisul. Foi assim, por dentro, que cresci sabendo desde cedo como funcionam os bancos, investimentos, fundos, bolsa de valores e tudo mais de finanças.

Sou a mistura desses termos: curiosidade, inovação, tecnologia, sistemas, finanças, tranquilidade.

Já iniciei e terminei mais de meia dúzia de empresas. Algumas vendi, outras fechei. Uma ou duas quebrei. Duas permanecem neste momento.

Já escrevi e publiquei dois livros, um deles por editora tradicional, antes da mágica da auto-publicação se tornar tão simples. Mais três estão a caminho.

Era isso o que tinha para hoje. Obrigado pela leitura.

Se você ainda tem alguma curiosidade sobre mim, fique a vontade de perguntar nos comentários.