Amizades leves

Esses dias li um artigo, acho que na ‘The Atlantic’ que falava da extinção de diversas formas de amizade causada pela crise da Covid. Com toda a história do ‘fique em casa’, do ‘use máscara’, acabamos perdendo uma série de interações sociais que de tão normais antes, nem dávamos bola, mas que hoje, com o mundo como está, acabam se mostrando muito importantes e fazendo falta para a maioria das pessoas.

São os vizinhos do prédio que nem conhecemos direito, mas com os quais temos a cortesia de um bom dia ao cruzar no elevador. Hoje essa cortesia pode ter sido substituída por um olhar de “já tem gente dentro, fica na tua e espera o elevador voltar vazio.” Ontem mesmo uma vizinha enviou na lista de WhatsApp do prédio uma pesquisa mostrando a importância dos aerosóis na transmissão da doença e indicando esse tipo de atitude. Se fiz isso uma ou duas vezes no início da crise, ainda quando as informações eram insuficientes, foi muito. Atualmente tenho entrado nos elevadores com os vizinhos, sempre de máscara todos, mas sabendo que estamos juntos lutando para isso tudo acabar logo. Claro que evito fazer o mesmo quando eventualmente vou ao supermercado, por exemplo, mas
e assim, vamos adaptando.

Outra classe de amizades que não costumamos prestar atenção são os diversos atendentes que costumam se repetir nos nossos dias. De muitos, nem sabemos o nome. Alguns sabemos o apelido. Todos, no entanto, costumavam nos ver diariamente, nos atender com um sorriso no rosto. Perdemos esses sorrisos, mesmo que tenhamos aos poucos tentado retornar a antigos hábitos. Eu ainda não voltei a frequentar cafeterias como sempre fiz antes disso tudo começar. A Valkiria, cafeteria próxima em que costumava marcar algumas reuniões, fechou.

Em seguida reabriu uma nova cafeteria no mesmo local. Dei um oi para os novos donos certo dia, da rua mesmo, à distância, enquanto passeava com meu bebê ali pela frente. Desejei boa sorte, mas pensei comigo mesmo o que tem na cabeça alguém que abre uma cafeteria nova em um momento de lockdown. Já tendo assistido o início e fim de um negócio desses de amigos que tentaram em outros tempos, sei das dificuldades mesmo em tempos normais.

Nessa cafeteria encontrava seguido o amigo Renato, colega de faculdade. Essa é outra forma de amizade leve que acabamos perdendo, pois tirando os poucos que temos em grupos de Facebook ou listas de WhatsApp, os outros só víamos mesmo nestes encontros casuais. Não vejo o Renato há algum tempo, e sem nosso café frequente não sabia quando o veria novamente. Pensei nele lendo o artigo. Ontem, ao publicar o primeiro texto deste desafio de 30 dias, o vejo lá na lista de quem deu like. As verdadeiras amizades, leves ou diárias, são mais fortes do que uma merda de pandemia qualquer.

Também são mais fortes que o tempo. Ontem aconteceu uma coisa curiosa, coisa de um segundo. Na saída do Zaffari, em um olho no olho que durou apenas uma fração de segundos, eu e a Adriana nos reconhecemos, pelos olhos que já se conhecem há mais de 40 anos, os mesmos olhos que cresceram juntos no colégio de freiras, eu o irmão mais velho, ela a amiga da irmã. E nesta fração de segundos por trás de máscaras, dissemos um ao outro: “oi, estamos aqui, isso tudo vai passar.”

Há ainda os completos desconhecidos, aqueles de quem realmente não sabemos nada da vida, dos desejos, dos anseios pessoais. Gente com quem cruzamos diariamente nos caminhos que costumávamos fazer. Pode ser o motorista do ônibus, o cobrador de sempre. O porteiro do prédio que não mais frequentamos. São pessoas importantes na nossa vida, se não para longas conversas, ao menos para alinhavar os períodos do dia.

Tenho um amigo leve destes no zelador do 222, próximo aqui de casa. Todos os dias passo por ali passeando com meu bebê. Ele já acena de longe ao nos ver. Chegando mais próximo já avisa que hoje não ligou o chafariz grande, pois o vento forte faz a água molhar toda calçada. Mas os pequenos estão ligados, como sempre, e sigo para lá com o bebê em seguida apontando para o lado onde iremos encontrar o segurança do próximo prédio, na entrada do estacionamento, quando subimos e descemos a rampa para tornar nosso passeio diário mais divertido.

Vemos muita gente nesse caminho. Os mendigos do muro grande não estão mais lá há bastante tempo. Estes, minha filha costumava dar oi nos passeios de bicicleta com o pai correndo atrás para acompanhar. Se estes não estão mais lá, o pessoal do corte de cabelo está, e de trás do vidro acenam para o bebê que está olhando para o enfeite giratório colorido que tem na fachada.

E no seu dia, quem são os amigos leves ou invisíveis que você tem sentido falta?

Autor: Fabricio S. Peruzzo

Papai investidor, marido, polímata, empreendedor, curioso. Tranquilidade financeira é qualidade de vida.

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