Diversificação

Em 11 de setembro de 2001 aprendi minha primeira lição sobre diversificação. Uns dias depois, na verdade.

Quem me lê a mais tempo sabe que no início dos meus investimentos perdi tudo que tinha investido na bolsa. Já contei essa história antes. No meio da tragédia das Torres Gêmeas e do horror que tudo aquilo representou, as bolsas despencaram com as dúvidas sobre o que aquilo traria de consequência para o mundo.

Naquela época investia em meu campo de conhecimento, sem olhar muito para outros setores. Minhas posições estavam concentradas em apenas três empresas, todas do mesmo setor de telecomunicações. Tinha Embratel, Globo Cabo e CRT apenas. Não poderia estar mais concentrado, nem estar no setor mais errado no meio do que aconteceu. Minha carteira perdeu 95% do valor em apenas três dias.

Claro, tragédias dessa magnitude não podem ser previstas antes de acontecerem, mas aí é justamente onde entra a importância da diversificação, ela nos protege justamente daqueles problemas que não conseguimos prever. Se eu tivesse a diversificação que tenho hoje, financeiramente o impacto teria sido absolutamente menor.

O Corona virus causou impacto semelhante em alguns setores da economia mundial. Imaginem se minha área de conhecimento fosse o setor de viagens e entretenimento, e se só investisse em empresas desse ramo, o tamanho do buraco em que teria caído. Ou se vivesse de imóveis de aluguel por temporada, imóveis de férias? Mesmo setores tradicionais e resilientes como este, podem sofrer consequências péssimas que, antes de uma epidemia de proporção mundial, jamais seria prevista.

Para minha sorte, perder tudo que tinha em um momento em que estava começando, onde ainda não tinha tanto assim, acabou sendo uma excelente lição que me protegeria em diversas ocasiões posteriores. Crise do subprime? Joesley Day? Greve dos caminhoneiros? Passaram batido, um soluço no grande esquema das coisas.

Como a todos, o Corona virus pegou meus investimentos de surpresa. Só não foi uma tragédia completa graças aos anos de aprendizado sobre a importância da diversificação. Enquanto algumas posições caíram bastante, outras subiram em proporção semelhante. No equilíbrio das coisas, e contando também com um pouco de sorte de ter feito certos negócios “na hora certa”, acabei ficando no zero a zero.

Se você teve o azar de ter sido atingido em cheio com as consequências da pandemia nas suas economias, deixo minha mensagem de alento, de que as coisas vão melhorar. O mais importante, porém, é estudar como estavam seus investimentos em março, e porque foram tão atingidos, para corrigir o rumo e proteger sua carteira das crises futuras, que certamente virão, não sabemos nem quando, nem de onde.

Termino com preces voltadas a todos que perderam suas vidas na tragédia imensa que foi a queda das Torres Gêmeas, e a todos que estão sofrendo as consequências atuais, não apenas as financeiras, da pandemia que assola nosso planeta no momento. Fiquem bem.

Desconectados

O Brandon escreveu há algum tempo um post interessante intitulado Disconnected. Traduzo abaixo para quem não tem familiaridade com o inglês.

Imagina isto:

Pouco tempo atrás, você acordou com seu despertador. Sem notificações, mensagens ou emails.

Foi ao banheiro, tomou um banho, e dirigiu ao trabalho.

Talvez ouviu as notícias no caminho, ou viu a previsão do tempo na TV antes de sair. Se você é uma pessoa matinal, pode ser que tenha acordado mais cedo e lido algumas notícias antes do café da manhã. De toda forma, a quantidade de informação e de opiniões a que você foi exposto foi limitada.

Ao chegar no trabalho, você trabalhou. Conversou com seus colegas e talvez tenha ligado para seu marido ou esposa no intervalo do almoço, mas por aproximadamente oito horas você esteve desconectado de sua vida pessoal. Você estava atuando no filme de outra pessoa. Não estava respondendo mensagens sobre dramas familiares ou amigos indignados com seus chefes. Não estava lendo comentários dizendo que seu diretor favorito de cinema é um lixo. Não estava olhando para uma lista de informações cuidadosamente elaborada por uma empresa cujo objetivo é lhe influenciar a comprar coisas. Você apenas trabalhou, comeu, conversou com colegas, e voltou para casa.

Na hora que chegou em casa, a maioria dos assuntos estressantes já tinha passado do estágio crítico. Os problemas do seu marido no trabalho aconteceram horas atrás e agora já são bem menos dramáticos. Sua própria má experiência com um cliente não está tão fresca e em vez de jogar sua frustração no seu companheiro, você conseguiu se recompor e explicar quão frustrante foi a situação sem aumentar sua frequência cardíaca.

Neste passado não tão distante, as notícias, dramas familiares, e injustiças em geral não apareciam em tempo real. Não havia cobertura 24/7 em seu telefone ou computador. A maioria das coisas eram discutidas horas depois, já de cabeça fria. Você podia contar sobre seu problema no trabalho para um amigo uma semana depois, mas você não escreveu para ele logo após ter acontecido. Você teve tempo para digerir e processar a experiência, não apenas reagir.

Sinto que tudo que fazemos atualmente é reagir. Somos bombardeados de informação/opiniões desde o momento em que acordamos e apenas reagimos. Não processamos. Expomos nossa primeira reação indignada nas redes sociais ou através de mensagens de texto, e não tenho certeza de que o cérebro humano funciona de maneira mais eficiente desta maneira. Reagimos com medo ou raiva, porque isto é o que nos mantinha a salvo na época primitiva, mas essas reações não servem mais para o mesmo fim em 2020.

Pequenos prazeres – pequenos rituais

Presente de aniversário chegou com uns meses de antecedência aqui este ano.

Já escrevi anteriormente sobre os pequenos rituais e como eles nos permitem levar a vida de forma um pouco mais leve e contemplativa.

Ontem minha esposa me presenteou com esta chaleira bico de ganso, presente de aniversário uns meses adiantado. Diz ela que estava angustiada de me ver tentando derramar a água em círculos no filtro de papel com a chaleira comum.

Não tenho palavras para descrever o quanto este presente simples tornou meus dias mais felizes. Fazer o café todas as manhãs é meu pequeno ritual para começar o dia. Me permite parar uns poucos minutos e meditar logo depois de acordar e ser grato por tudo de bom que acontece na vida.

Este período de pandemia nos trouxe uma série de desafios, o mundo de cabeça para baixo. Poder ter estes pequenos momentos faz toda a diferença quando conseguimos ver o quanto somos privilegiados em poder passar por isso da maneira que estamos passando, com relativa segurança.

A felicidade está nas coisas simples. Uma chaleira pode não fazer nenhuma diferença na sua vida, mas na minha, lembra o quanto sou querido aqui em casa, todos os dias, enquanto preparo meu café todas as manhãs.

Tenha um bom dia.

Idéias para a vida

Do livro de citações do Patrick Rhone

  • Use o que você possui;
  • Seja quem você é;
  • Preste atenção a tudo ao seu redor;
  • Busque ser uma pessoa de poucas necessidades;
  • Pontos de interrogação em vez de pontos finais;
  • Seja curioso;
  • Bom o suficiente é bom o suficiente;
  • Não confunda o que é urgente com o que é importante;
  • Passe ao menos um dia por ano em completa solidão;
  • Faça o máximo possível com o mínimo necessário;
  • Faça menos promessas, mas cumpra todas que fizer.

Ações, não palavras, revelam nossos verdadeiros valores

Derek Sivers, mais uma vez, acertando em cheio, em um artigo de 2016. Traduzo abaixo, mas se preferir você pode ler o original, e já se esbaldar com muitos outros artigos sensacionais: Actions, not words, reveal our real values.

Me identifiquei muito com o texto, como acontece com quase tudo que o Derek escreve, pois temos uma história muito semelhante, com sucesso relativamente cedo que permitiu a possibilidade de escolha do que fazer no futuro sem depender de um emprego tradicional para o sustento. E da preferência por estudar, escrever, e ser bastante participante no dia a dia do crescimento dos filhos.

Já fui um empreendedor serial. Hoje, prefiro ser pai, estudante, escritor, pintor, leitor… e vendedor de consórcio, que foi a ferramenta/investimento que realmente me permitiu chegar neste ponto.


Contei ao meu antigo coach que eu realmente gostaria de abrir minha nova empresa.

Ele disse, “Não, você não gostaria.”

Eu disse, “Sim, gostaria! Isto é realmente importante para mim!”

Ele disse, “Não, não é. Falar não torna isso verdade.”

Eu disse, “Você não pode ignorar o que estou dizendo. Me conheço bem. Estou te dizendo o que é importante para mim.”

Ele disse, “Sim, eu posso ignorar o que você está dizendo e simplesmente olhar para suas ações. Nossas ações sempre revelam nossos verdadeiros valores.”

Pensei sobre isso, mas me soou errado. O que dizer de pessoas que querem aprender outras línguas, ou criar negócios, mas que ainda não começaram? E sobre pessoas que desejam parar de fumar ou largar seus empregos, mas ainda não conseguiram?

Ele disse, “Se eles realmente quisessem fazer, já teriam feito. Você vem falando sobre esta idéia de uma nova empresa desde 2008, mas nunca começou. Olhando para suas ações, e te conhecendo, eu diria que você realmente não deseja começar um novo negócio. Você, na verdade, prefere a vida simples que tem agora, focada em aprender, escrever, e brincar com seu filho. Não importa o que diga, suas ações revelam a verdade.”

Wow. Claro. Ele estava certo.

Eu vinha me enganando há anos, dizendo para mim mesmo que eu queria fazer isso, mas minhas ações provaram o contrário. Sim, eu queria um pouco, mas queria outra coisa muito mais.

Agora tenho compartilhado este pensamento com amigos que falam que querem alguma coisa, mas não fazem acontecer. Todas as vezes, eles tem a mesma reação que eu tive.

Não importa o que você conta ao mundo, ou conta para si mesmo, suas ações revelam seus verdadeiros valores. Suas ações mostram o que você realmente deseja.

Há duas reações inteligentes a esta constatação:

  • Pare de mentir para si mesmo, e admita suas reais prioridades.
  • Comece a fazer o que você diz que deseja fazer, e veja se é realmente verdadeiro.

 

Medo de sair

Em tempos de Coronavirus…

Todos devem conhecer o termo FOMO (Fear of missing out), o medo de perder algo legal por decidir ficar em casa. O medo de perder a melhor festa do ano, o melhor show, o video que todos estão comentando…

Acredito que nos próximos meses devemos começar a ver o oposto disso, o medo de sair de casa.

Será que para ver de perto aquele artista que gostamos vale mesmo a pena se expor a ficar próximo de milhares de pessoas que não conhecemos e que podem nos contaminar com um vírus altamente contagioso que mesmo que não nos faça mal podemos levar para casa e contaminar algum familiar mais vulnerável?

Será que eu gosto tanto assim daquela pessoa que faz aniversário hoje a ponto de correr o risco de adoecer para ir lá dar um abraço pessoalmente, ou é melhor telefonar ou fazer uma video-chamada?

Saio para almoçar fora, ou faço comida em casa? Ou chamo uma tele-entrega?

Se meu trabalho pode ser feito de casa, vale mesmo a pena me deslocar até um escritório compartilhado com outras pessoas? Participar de reuniões presenciais?

Quero mesmo passear no shopping para me distrair? Não seria melhor um livro, ou até mesmo um seriado qualquer no Netflix? Uma praça ampla? Uma caminhada no meio do mato ou na beira da praia (praia pequena, não grandes centros urbanos)?

Aquela viagem maravilhosa, aquele lugar que eu sempre quis conhecer… Será? Confesso que esta á uma das partes mais difíceis para mim, o desejo de viajar e conhecer outras culturas, outras arquiteturas, hábitos e pessoas, é uma das coisas que mais me move na busca de aprender sempre mais. Ficar sem viajar seria para mim uma das piores coisas que poderia acontecer em um mundo onde o medo de contaminação impedisse o livre fluxo das pessoas.

Nem falo aqui apenas das escolhas pessoais, neste último caso das viagens, mas também dos impedimentos de governos cada vez mais autoritários que vemos aparecendo, forçando as pessoas a ficar em casa, aplicando multas para quem ouse sair, fechando fronteiras. Será que no meio da minha viagem serei impedido de voltar ao meu país? Como vou sobreviver em um local onde deveria apenas passear por uns dias, como vou pagar as contas, como usar o sistema de saúde se for necessário?

O quanto o medo de sair de casa irá alterar seus hábitos? Quanto isso irá impactar nos hábitos de uma população? Quais serviços serão afetados por algo desse tipo? Quanta gente precisa sentir esse medo para que o que estamos acostumados como realidade mude definitivamente?

Posso estar errado, posso estar tomando uma realidade particular minha, de uma pessoa que mesmo antes disso tudo já gostava mais de ficar em casa do que de sair por aí. Posso estar pensando pelo ponto de vista da ansiedade que me acompanhou por toda a vida, e não pelo ponto de vista de uma pessoa mais relaxada em relação à isso, mas e se isso tudo se prolongar por mais tempo? Quanto tempo de restrição de mobilidade é necessário para lhe fazer rever seu ponto de vista? Quantas pessoas próximas precisam morrer para você começar a se preocupar com tudo que está acontecendo?

Ainda saio para fazer compras com certa frequência. Mesmo ansioso, estou menos trancado em casa do que muitos amigos mais tranquilos. Cuido, não toco em nada desnecessário, evito tocar no rosto assim que atravesso a porta de casa para rua, lavo as mãos e passo álcool gel com frequência, evito passar perto das pessoas, saio rápido e volto mais rápido ainda. Quando isso vai mudar? Quanto isso vai mudar?

Deixo as perguntas no ar. Como está sendo esta época para você?

Kurt Vonnegut

Então nesta madrugada, depois de 47 anos escrito, sei bem, porque foi escrito no ano em que nasci, descobri Breakfast of the Champions, do Kurt Vonnegut, depois de ter pedido uma prova do mesmo na Amazon, pois havia ficado curioso quando recebi um e-mail de promoção com o livro a US$2,99 e, tendo baixado tal prova no meu Kindle, e com o celular carregando na sala, diferente de todo dia, quando dorme ao meu lado na mesinha ao lado da cama, e então com o Kindle ali posicionado para a insônia eventualmente esperada, e com a prova de outro livro que não me interessou continuar depois de ler as primeiras páginas, comprei o mesmo direto no Kindle, devidamente configurado para comprar com meu cartão de crédito previamente cadastrado na loja de tudo, e tal foi minha admiração com a leitura, que logo após parar, pois o sono parecia ter voltado a me chamar, acabei levantando, pegando o iPad onde agora escrevo esta frase, que deve ser, com certeza, a maior frase que já escrevi na vida, para descrever minha estupefação ao me dar conta da finitude da vida, e de quanto, a cada dia, descubro que ainda não conheço ou não sei, e provavelmente, nunca virei a saber, dado o tamanho dos meus interesses e a limitação previamente mencionada do tempo necessário a conhecer isto tudo, e agora tento voltar a dormir, talvez depois de publicar esta frase em algum lugar, no caso, agora, em meu site pessoal, como uma lembrança de que sempre temos algo novo a aprender todos os dias, ou no caso, na madrugada.

No fundo do poço – Depressão, ansiedade, e trabalho

Se você sofre com depressão, ou acha que sofre disso, mas não tem certeza, espero que as palavras abaixo lhe ajudem.

A idéia de escrever este texto começou em março de 2019, assim que li a publicação do Chris Brogan [https://www.linkedin.com/pulse/uphill-both-ways-depression-anxiety-work-chris-brogan/] e me identifiquei muito com tudo o que ele relatava.

A motivação aumentou depois de ler tweets do Matt Haig [https://twitter.com/matthaig1] [https://www.matthaig.com], e um post no Facebook do meu amigo Alessandro Gonçalves [https://www.facebook.com/746912638/posts/10157261175557639?sfns=mo] foi o incentivo que faltava para eu finalmente partir para ação.

Começou como uma simples tradução do texto do Chris, mas a medida em que traduzia, colocava uma frase ou paragrafo extra falando de situações pessoais minhas, voltava, editava alguma coisa que tinha esquecido e que me voltou à memória, e no final, o que temos é o texto abaixo.

Se ajudar apenas uma pessoa, você que está lendo isto, já valeu a pena o tempo dedicado. A verdade é que valeu a pena de toda forma, e aqui já deixo uma dica que me ajuda muito a tornar os dias mais leves e suportáveis quando as coisas estão pesadas dentro da alma… Escrever cura. Escreva o que você sente. No mínimo, o ato de colocar os sentimentos em palavras e organizar as idéias desconexas te fará ver as coisas com mais clareza.

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O propósito deste texto é ser um breve relato de como se parece o que suponho ser depressão. Para você pode ser diferente, mas queria compartilhar para o caso de você sentir qualquer destas coisas, e se sentir sozinho ou errado por isso. Procure ajuda.

Acredito ser crítico que nós que sofremos com isso compartilhemos nossas histórias, para que outros se deem conta que não estão sozinhos. Para que outros possam ver uma fagulha de esperança na escuridão da depressão. E para que os que não sofrem com isso possam ver que isso é real. E causa danos reais.

A depressão tem sido uma companhia frequente, desde a adolescência ou até antes. Eu não sabia o que era até muito tempo depois que isso começou a bagunçar bastante as coisas para mim. Gostaria de ter ouvido mais histórias sobre o assunto lá atrás.

Como você pode tocar um negócio e lidar com a depressão ao mesmo tempo?

Antes de ter filhos, conseguiria dormir 12-16 horas quando lidava com a depressão. Eu iria para cama cedo, acordaria cedo, mas então optaria a voltar a dormir o máximo possível. Quando finalmente saísse da cama, me sentia como se caminhando em uma piscina de cola até a cintura. Tudo é mais lento. Com filhos a coisa é parecida, mas sem a possibilidade de ficar dormindo, ou mesmo de ir para cama mais cedo, então o cansaço torna ainda mais difícil a caminhada na piscina de cola. As coisas andam no automático.

Em dias bons, tomo um banho. Saio para rua, vou a uma cafeteria. Sorrio um pouco. Em dias ruins, decido que uma lata de sardinhas e um ovo frito é um almoço aceitável e tento não atender meu telefone ou responder emails ou mídias sociais.

Meu trabalho é basicamente criativo. Muito poucas pessoas entendem o que é necessário para produzir conteúdo criativo dia sim, dia também. Há um desgaste mental e emocional cada vez que você faz algo. Você pode perguntar: “mas tu não vendes consórcios de imóveis?” A verdade é que não, não vendo consórcios. Ok, vendo consórcios, mas isto é a fase final. O que eu faço é escrever sobre este assunto explicando da melhor maneira possível o porque disso ser um ótimo investimento. Escrevo sobre finanças pessoais. Oriento sobre investimentos. Tudo isso, apesar de não parecer, precisa de criatividade para tornar o assunto minimamente interessante. Se estou chateado (não a depressão, mas algo efetivamente me incomodando), então nada flui. Aí é quando a ansiedade bate.

Por muito tempo, eu nem mesmo tinha me dado conta que eu tinha ansiedade. Porque anos antes, eu tive ataque de pânico e sabia o que isso se parecia. Pensava que ansiedade fosse algo deste tipo, mas não é. Para mim, ansiedade é como um monte de abelhas. Todas elas gritando “e se, e se, e se, eseeseeseeseeseese” enquanto eu tento fazer algo útil.

Quando trabalho em algo criativo (como escrever isso para você), sinto o zumbido da ansiedade zunindo nas minhas orelhas. Eu tenho coceiras pensando em que mais deveria fazer que seria um melhor uso do meu tempo. Eu me preocupo com coisas que não aconteceram ainda.

Um dos gatilhos que já identifiquei que podem indicar que estou sofrendo com ansiedade é uma irritação intensa, auto-depreciação, síndrome do impostor, ou a simples vontade de simplesmente desaparecer.

É uma merda que a depressão me motiva a ignorar um monte de informações e a ansiedade grita comigo dizendo que estou deixando passar alguma tragédia prestes a acontecer.

Então como você produz qualquer coisa?

Estou escrevendo isso em um dia em que a incerteza pressionou meus botões de depressão. Isso é assunto vulnerável, e é ainda mais vulnerável porque estou escrevendo isso com intenção de publicar em seguida. Comecei a escrever incentivado pelos textos que mencionei no início, principalmente os do Matt, que já passou por isso em níveis muito mais intensos ou perigosos.

Estou escrevendo. Como? No geral, eu falo para minha depressão: “Certo, você teve o suficiente,” e tento ao máximo me colocar em um estado de trabalho diferente. Eu me forço a levantar, tomo um banho, coloco roupas de trabalho, e sento na minha mesa “de trabalho” e começo a escrever. Esses gatilhos físicos parecem ajudar muito.

Essas últimas semanas isto tem sido um pouco mais complicadas. Com as férias escolares, e sem suporte extra, somos só eu e minha esposa para cuidar de duas crianças pequenas e todas as tarefas de casa. Meu home-office deixou de existir com a transformação em quarto do bebê. Comprei uma sala que fica a apenas uma quadra aqui de casa, mas como ir para lá, com tudo a fazer por aqui? Então escrevo em etapas, na mesa da sala, nos raros momentos em que o bebê está tranquilo, a filha maior está brincando com ele e a mãe, e não há uma montanha de louça para lavar (caso em que eu não estaria aqui escrevendo, mas sim, lavando a tal pilha de louça.)

Mentalmente é difícil ficar depressivo enquanto você está no meio de um esforço de produção criativa. Eu não consigo digitar esta frase e concatenar todo o material mental que eu preciso para alimentar o lado intelectual da minha depressão ao mesmo tempo. (Claro, a química está toda lá, mas estou ativamente ignorando-a no momento.)

Então, consigo lidar com a ansiedade e ser criativo ao mesmo tempo? Estou fazendo isso agora, mas deixa te contar, as abelhas são barulhentas. Preciso urgentemente de um café (e todo bom adepto da auto-medicação sabe que a cafeína ajuda com a ansiedade), e então, quando acabar de escrever isso para você, vou fazer um café na minha caneca de sempre, passado no filtro individual, já que só eu tomo café aqui.

Interações sociais são uma coisa completamente diferente

Eu tenho o imenso prazer de conhecer milhares de pessoas através do trabalho que faço. Eu já passei momentos únicos ao lado de pessoas muito inteligentes e especialistas em suas áreas. Quer saber? Eu provavelmente já passei algum tempo com você, se você está lendo isso. Muito provável.

Mas sou também um introvertido por natureza. Eu gosto de doses de interação social. Eu gosto de falar com as pessoas intensamente por um tempo, e então posso não entrar em contato para nada, por anos. Nunca há um pensamento negativo associado a isso pelo meu lado. Eu apenas acho que as pessoas todas tem vidas ricas e completas, e que realmente não precisam estar em constante contato com todos com quem já se encontraram.

A depressão bagunça as interações sociais. É uma mistura estranha. Você não deseja mesmo contato com ninguém porque está preso na piscina de cola da depressão. Mas você se sente mal quando outros não entram em contato aleatoriamente com você. Este é um dos grandes problemas dos relacionamentos: ninguém lê mentes. Você pode desconsiderar a “leitura de mentes” nos outros rapidamente, mas com depressão, muitas das nossas regras desabam.

E há o aspecto de simplesmente não conseguir fazer nada. E há coisas que precisam ser feitas. As realmente urgentes, acabo fazendo. Tenho sistemas de apoio que não me deixam extrapolar os prazos. Normalmente quando estou no fundo do poço, faço essas coisas no último minuto, mas faço. Pagar contas, por exemplo. Há gente que depende de mim para seus negócios, para seus lances no consórcio, coisas desse tipo… A ética profissional embutida no meu DNA não deixa que eu falhe nisso, mas deixa te contar, é um esforço sobre-humano.

O problema de não conseguir fazer nada é exatamente o de decepcionar exatamente quem eu não poderia decepcionar mais: eu mesmo. Quando estou no fundo do poço, sou o último a receber um agrado. Então se um cliente liga com um problema, resolvo o problema. Já se alguém que ainda não tem relacionamento profissional comigo entra em contato para dizer que gostaria de contar com minha ajuda, a piscina de cola me prende de tal forma que deixo aquele email lá guardado, para ser respondido depois, com mais calma, com mais dedicação, com mais atenção… E isso pode demorar uns dias… Ou mais… As pessoas boas relevam esse tempo, entram em contato novamente, pensam que o email possa ter sido extraviado, e, se o novo email chega em um bom momento, consigo responder de imediato e eventualmente fechar negócio. Se não, provavelmente foi uma porta que se fechou justamente em um momento em que mais precisaria de portas se abrindo na minha frente.

Interações sociais também podem ser desafiadoras. Especialmente na era do Instagram e Facebook. Porque você tem a prova visual (e a falácia mental) de que você está tendo a vida social menos divertida e mais desagradável de todos que você conhece. Porque claramente (por favor liguem seus filtros de sarcasmo) todo mundo posta um pouquinho de suas vidas no Instagram e no Facebook, e não apenas as melhores partes selecionadas a dedo para parecer ainda melhor do que são.

Dicas de mídias sociais para pessoas “quebradas”

  • Se você está no auge da sua depressão/ansiedade, fuja do Facebook e do Instagram. O que você menos quer é aquela sensação falsa de que todo mundo está se divertindo, menos você.
  • Tudo bem postar em algum lugar que você está se sentindo para baixo. Você precisa procurar sua própria ajuda.
  • Compartilhar completamente seu buraco emocional não irá lhe beneficiar mais tarde. É perfeitamente bom/importante/incentivado dizer, “Pois é, lidando com alguma depressão no momento.” Mas pare por aí. A não ser que você vá falar sobre como seu trabalho está indo bem.
  • Outras pessoas ficarão desconfortáveis quando você falar destas coisas. Tente manter o assunto leve, fácil, e se você puder, tranquilize um pouco a mente das outras pessoas.
  • Dormir é importante. (O suficiente, não demais.) Algumas vezes, nos perdemos em video games, maratonas de seriados no Netflix, e coisas desse tipo. Temos que limitar este tipo de estímulo próximo da hora de dormir. Você verá mais claramente no dia seguinte.

E aqui segue uma coisinha que normalmente me incomoda: Não se preocupe em gritar adeus se você tiver que dar uma pausa em alguma rede social. Está tudo bem se você não responder um comentário ou alguma menção. Simplesmente desapareça pelo tempo que você achar necessário, e volte quando desejar. (A não ser que seja seu trabalho, e aí, comece a trabalhar com as pessoas sobre contingências.)

É como quando você decide sair de uma festa “à francesa,” ou seja, sem avisar ninguém. Você simplesmente desaparece. Só vale se realmente ninguém nota que você se foi.

Eu acredito que em mídias sociais, sair à francesa é a melhor maneira de lidar com a depressão. Mas se você precisa estar lá e manter presença, então produza mais do que responde e olha da postagem dos outros. Essa é a regra de ouro.

No fundo do poço, mas não sempre

Claro que parece que algumas vezes tudo me arrasta através do poço de cola. Minha cabeça parece cheia nestes momentos. É como estar mergulhando na piscina, tudo lento e com o som abafado.

Nos momentos ruins, não consigo ir em frente. Não há momentum. Em horas melhores como a que estou usando agora para escrever isto, é como se um raio de sol surgisse por um lapso de tempo. Você consegue sorrir um pouco. Você pensa de forma coesa sobre o que deseja realizar.

Então isso não é uma coisa de “sempre.” Não é sempre escuridão. Na verdade, muitas pessoas lidam com o stress, ansiedade e depressão usando a comédia como ferramenta. Comediantes profissionais geralmente lidam com vários níveis de depressão. Infelizmente, perdemos algumas das pessoas mais engraçadas para o suicídio. Parece haver uma relação próxima entre a atividade de comediante e a depressão. O nome Robin Williams te lembra de alguma coisa?

Pessoas com depressão RIEM!

É muito importante se dar conta que a depressão e a ansiedade e todas essas coisas nem sempre impedem sua habilidade de amar e de rir. Você pode lidar com a depressão e amar. (Você pode ser um FDP mais seguido, então se prepare para pedir mais desculpas e consertar as coisas com mais frequência.) Você pode ter ansiedade e encontrar ótimos motivos para rir.

Claro, é o fundo do poço, mas não o tempo todo.

Traga todas suas falhas para o trabalho, e descubra como você pode obter sucesso mesmo que você esteja “quebrado.”

E só para deixar claro, está tudo bem por aqui. Afinal de contas, olha o tamanho do texto que saiu 🙂

Espero ter ajudado. E que nós tenhamos muitos dias de sol. Feliz 2020.

Escada da aposentadoria

Uma das estratégias que utilizei no início dos meus investimentos foi a técnica que batizei de “escada da independência financeira”, ou “escada da aposentadoria.”

Resumidamente essa técnica implica em definir um padrão de vida mínimo para se sentir bem com seu dia a dia, e então investir de maneira a permitir que os rendimentos desse investimento gerem lucros suficientes para manter indefinidamente esse padrão de vida inicial.

Ao fazer isso, podemos nos “aposentar.” Ou seja, nossos investimentos já geram o suficiente para manter nosso padrão de vida sem precisarmos trabalhar.

Claro que não devemos parar por aí. Como expliquei, a técnica envolve definir um padrão de vida realmente mínimo para aquele momento inicial. No meu caso, era de um guri recém saído da faculdade, sem grandes gastos fixos, sem filhos, etc. Podia me dar ao luxo de ter uma vida muito simples e barata. Ao prorrogar a aquisição de alguns objetos de desejo, ou no meu caso, tratar esses objetos como um negócio paralelo, isso me permitiu acelerar em muitos anos a conquista da minha liberdade.

Eu gostava de notebooks em uma época em que ainda eram novidade caríssima, então, ao tratá-los como um negócio, ou seja, adquirindo e revendendo, me mantinha sempre com alguns notebooks topo de linha disponíveis para meu uso e estudo do assunto, ao mesmo tempo em que fazia com que essa disponibilidade me gerasse mais dinheiro para manter o giro e a constante atualização dos equipamentos.

A medida em que tinha a liberdade não não precisar mais trabalhar para manter o padrão de vida previamente definido, tinha a liberdade de trabalhar com o que quisesse, e não precisaria aceitar um emprego qualquer apenas para pagar as contas. Trabalhar com o que gostamos é o segundo segredo para obter sucesso financeiro. No momento em que o trabalho é um prazer, deixa de ser trabalho e rendemos muito mais.

Tinha a segurança das contas pagas pelo rendimento dos investimentos permitindo que me dedicasse a um novo negócio de muito potencial, mas que talvez demorasse um pouco até crescer o suficiente.

O segundo passo na escada da independência financeira é então definir esse novo padrão de vida um pouco mais alto, e então direcionar uma parte dos ganhos com o trabalho a aumentar o bolo dos investimentos de maneira a fazer os novos rendimentos permitirem a manutenção desde segundo degrau novamente sem trabalhar. E assim sucessivamente.

Se você gostou desta técnica e a deseja colocar em prática, vou ficar feliz em conhecer sua história. Fique a vontade para me escrever e me contar como está funcionando para você.

Eu sou o Fabricio Peruzzo, o Papai Investidor, e estou aqui para lançar idéias que possam te ajudar na conquista da independência financeira.

Propriedade

Muito novo me interessei por empreender. Lembro de ainda pequeno desenhar meus negócios e empresas. Adolescente, fanático por computadores e já programando, ao conseguir um trabalho para a criação de um programa, subcontratei um amigo para realizar a programação e não perder meu tempo com isso, podendo então me dedicar a buscar novos trabalhos para nós dois. Foi quando me dei conta de que gostava mais dos negócios do que das atividades fim.

Filho de economista com cargo de chefia em banco, com facilidade para matemática, não demorou muito para estudar sobre investimentos. Minhas primeiras incursões na bolsa de valores foram facilitadas pela linha telefônica que já possuía em meu nome (para usar no computador sem monopolizar o telefone dos meus pais), pois na época, comprar linha telefônica implicava em automaticamente comprar ações da companhia telefônica atreladas à linha.

Quando comecei a estudar investimentos e a montar meus primeiros negócios, meu objetivo era ganhar muito dinheiro, enriquecer, e poder comprar todos os equipamentos e objetos que pudesse. Gostando de computadores ainda no início da revolução tecnológica, era bastante caro se manter atualizado nesta área.

Apesar de ter ido à Disney aos 17 anos (bancado pelo pai) e ter adorado a viagem toda, parece que o objetivo de “possuir coisas” me deixou meio cego por bastante tempo.

Quando viajar passou a depender de usar meus próprios recursos, simplesmente as viagens acabaram. Lembro hoje com certa tristeza de como pensava sobre o assunto: “porque irei viajar e gastar todo esse dinheiro em uns poucos dias de diversão que acabam em seguida, se com este valor poderia comprar X?”

Em 2009 fiz com minha esposa uma longa viagem pela Europa. Ficamos mais de um mês passeando por Espanha, França, Itália e Inglaterra. Foi um abrir de olhos. Ao mesmo tempo em que todos os objetos que possuía ou havia comprado nos anos anteriores haviam ficado obsoletos (computadores, máquinas fotográficas, etc), aquela viagem abriu meus olhos de uma forma que nenhuma outra havia conseguido. Claro que tínhamos feito pequenas viagens antes, mas sempre para locais mais próximos, como Buenos Aires, em que tanto o custo quanto a familiaridade geográfica não permitiam que eu obtivesse minha revelação.

A experiência de uma viagem fica para sempre na nossa memória. Não apenas as coisas que fazemos, mas a cultura que absorvemos, nos fazem crescer. Vivenciar o dia a dia de outro país, de outra língua, de outra mentalidade, abre nossa cabeça de uma forma que não julgava possível.

Desde então procuro viajar com regularidade. E proporcionar passeios mais longos com frequência suficiente para meus filhos de maneira a que eles tenham isso como normal.

Empreender e investir se tornou uma ferramenta para proporcionar experiências de vida.

Chega a ser engraçado hoje, ao olhar para trás, ver o quanto eu dava importância à propriedade das coisas, em ter coisas, em conquistar objetivos materiais. Não que eu ache ruim ter coisas boas, em usufruir de objetos que nos tragam prazer, mas com o tempo cada vez mais restrito, seja pelas escolhas de paternidade presente, seja pelo simples excesso de opções, vejo a propriedade muito mais como uma questão de qualidade do que de quantidade.

Antes, com todo tempo do mundo a disposição e um interesse focado em duas ou três coisas (computadores e fotografia, no meu caso), a possibilidade de experimentar (e possuir) todos os tipos de computadores, o equivalente hoje a querer possuir e usar simultaneamente tanto iOS quanto Android e outros sistemas já obsoletos, ou em outra escala, ter quatro ou cinco carros, um para cada tipo de situação, era o objetivo natural.

Isso me foi bastante útil na época. Não quero aqui cuspir na pessoa que fui. Mas essa pessoa, não sou mais. Poder possuir (na época era a única forma de poder efetivamente usar e conhecer profundamente) diferentes computadores foi vital para aumentar meu conhecimento neste ramo e teve impacto significativo no meu sucesso neste mercado. Vejo isso hoje como investimento em formação prática no assunto.

Essa questão de ter, entretanto, extrapolava o lado da busca de conhecimento sobre o assunto. Queria também ter carros esportivos, Jeep, moto, jet-sky, etc. E como li algum dia por aí, podemos ter qualquer coisa que quisermos, mas não podemos ter tudo que quisermos ao mesmo tempo.

Já hoje, com a abundância de informação disponível através de videos e artigos na internet, muito pouca coisa é realmente necessário possuir para formar uma opinião concreta sobre determinado campo. Vejo hoje os objetos como meras ferramentas para um fim, e neste sentido, nem mesmo o mais moderno ou completo necessariamente deve ser o melhor, mas sim, o que mais se adapte à pessoa e ao trabalho que ela quer realizar. Câmeras fotográficas analógicas hoje em dia? Sim, é possível e interessante.

Então não tendo mais “necessidade” de objetos variados para realização pessoal, e vivendo em uma época em que mesmo as ferramentas mais úteis podem ser obtidas por uma fração do que equipamentos profissionais custavam poucos anos atrás, além de termos acesso a tudo que precisamos de forma facilitada hoje em dia, o dinheiro acaba sendo a ferramenta master para conquistarmos o “bem” mais precioso: tempo.

Dinheiro hoje, basta o suficiente para ter uma vida tranquila, contas pagas, experiências suficientes para ocupar as horas do dia não dedicadas ao estudo e trabalho. E se tudo isso parece pouco, dê uma olhada mais profunda no que lhe falta. Pode ser que não seja “uma coisa”, mas sim, algo mais íntimo que você ainda não conseguiu descobrir em si.

Ou então simplesmente seja questão de que quanto mais podemos ter, passamos a nos dar conta de que menos precisamos para sermos felizes e completos.

Hoje completo 47 anos. Pode ser a idade 🙂