No fundo do poço – Depressão, ansiedade, e trabalho

Se você sofre com depressão, ou acha que sofre disso, mas não tem certeza, espero que as palavras abaixo lhe ajudem.

A idéia de escrever este texto começou em março de 2019, assim que li a publicação do Chris Brogan [https://www.linkedin.com/pulse/uphill-both-ways-depression-anxiety-work-chris-brogan/] e me identifiquei muito com tudo o que ele relatava.

A motivação aumentou depois de ler tweets do Matt Haig [https://twitter.com/matthaig1] [https://www.matthaig.com], e um post no Facebook do meu amigo Alessandro Gonçalves [https://www.facebook.com/746912638/posts/10157261175557639?sfns=mo] foi o incentivo que faltava para eu finalmente partir para ação.

Começou como uma simples tradução do texto do Chris, mas a medida em que traduzia, colocava uma frase ou paragrafo extra falando de situações pessoais minhas, voltava, editava alguma coisa que tinha esquecido e que me voltou à memória, e no final, o que temos é o texto abaixo.

Se ajudar apenas uma pessoa, você que está lendo isto, já valeu a pena o tempo dedicado. A verdade é que valeu a pena de toda forma, e aqui já deixo uma dica que me ajuda muito a tornar os dias mais leves e suportáveis quando as coisas estão pesadas dentro da alma… Escrever cura. Escreva o que você sente. No mínimo, o ato de colocar os sentimentos em palavras e organizar as idéias desconexas te fará ver as coisas com mais clareza.

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O propósito deste texto é ser um breve relato de como se parece o que suponho ser depressão. Para você pode ser diferente, mas queria compartilhar para o caso de você sentir qualquer destas coisas, e se sentir sozinho ou errado por isso. Procure ajuda.

Acredito ser crítico que nós que sofremos com isso compartilhemos nossas histórias, para que outros se deem conta que não estão sozinhos. Para que outros possam ver uma fagulha de esperança na escuridão da depressão. E para que os que não sofrem com isso possam ver que isso é real. E causa danos reais.

A depressão tem sido uma companhia frequente, desde a adolescência ou até antes. Eu não sabia o que era até muito tempo depois que isso começou a bagunçar bastante as coisas para mim. Gostaria de ter ouvido mais histórias sobre o assunto lá atrás.

Como você pode tocar um negócio e lidar com a depressão ao mesmo tempo?

Antes de ter filhos, conseguiria dormir 12-16 horas quando lidava com a depressão. Eu iria para cama cedo, acordaria cedo, mas então optaria a voltar a dormir o máximo possível. Quando finalmente saísse da cama, me sentia como se caminhando em uma piscina de cola até a cintura. Tudo é mais lento. Com filhos a coisa é parecida, mas sem a possibilidade de ficar dormindo, ou mesmo de ir para cama mais cedo, então o cansaço torna ainda mais difícil a caminhada na piscina de cola. As coisas andam no automático.

Em dias bons, tomo um banho. Saio para rua, vou a uma cafeteria. Sorrio um pouco. Em dias ruins, decido que uma lata de sardinhas e um ovo frito é um almoço aceitável e tento não atender meu telefone ou responder emails ou mídias sociais.

Meu trabalho é basicamente criativo. Muito poucas pessoas entendem o que é necessário para produzir conteúdo criativo dia sim, dia também. Há um desgaste mental e emocional cada vez que você faz algo. Você pode perguntar: “mas tu não vendes consórcios de imóveis?” A verdade é que não, não vendo consórcios. Ok, vendo consórcios, mas isto é a fase final. O que eu faço é escrever sobre este assunto explicando da melhor maneira possível o porque disso ser um ótimo investimento. Escrevo sobre finanças pessoais. Oriento sobre investimentos. Tudo isso, apesar de não parecer, precisa de criatividade para tornar o assunto minimamente interessante. Se estou chateado (não a depressão, mas algo efetivamente me incomodando), então nada flui. Aí é quando a ansiedade bate.

Por muito tempo, eu nem mesmo tinha me dado conta que eu tinha ansiedade. Porque anos antes, eu tive ataque de pânico e sabia o que isso se parecia. Pensava que ansiedade fosse algo deste tipo, mas não é. Para mim, ansiedade é como um monte de abelhas. Todas elas gritando “e se, e se, e se, eseeseeseeseeseese” enquanto eu tento fazer algo útil.

Quando trabalho em algo criativo (como escrever isso para você), sinto o zumbido da ansiedade zunindo nas minhas orelhas. Eu tenho coceiras pensando em que mais deveria fazer que seria um melhor uso do meu tempo. Eu me preocupo com coisas que não aconteceram ainda.

Um dos gatilhos que já identifiquei que podem indicar que estou sofrendo com ansiedade é uma irritação intensa, auto-depreciação, síndrome do impostor, ou a simples vontade de simplesmente desaparecer.

É uma merda que a depressão me motiva a ignorar um monte de informações e a ansiedade grita comigo dizendo que estou deixando passar alguma tragédia prestes a acontecer.

Então como você produz qualquer coisa?

Estou escrevendo isso em um dia em que a incerteza pressionou meus botões de depressão. Isso é assunto vulnerável, e é ainda mais vulnerável porque estou escrevendo isso com intenção de publicar em seguida. Comecei a escrever incentivado pelos textos que mencionei no início, principalmente os do Matt, que já passou por isso em níveis muito mais intensos ou perigosos.

Estou escrevendo. Como? No geral, eu falo para minha depressão: “Certo, você teve o suficiente,” e tento ao máximo me colocar em um estado de trabalho diferente. Eu me forço a levantar, tomo um banho, coloco roupas de trabalho, e sento na minha mesa “de trabalho” e começo a escrever. Esses gatilhos físicos parecem ajudar muito.

Essas últimas semanas isto tem sido um pouco mais complicadas. Com as férias escolares, e sem suporte extra, somos só eu e minha esposa para cuidar de duas crianças pequenas e todas as tarefas de casa. Meu home-office deixou de existir com a transformação em quarto do bebê. Comprei uma sala que fica a apenas uma quadra aqui de casa, mas como ir para lá, com tudo a fazer por aqui? Então escrevo em etapas, na mesa da sala, nos raros momentos em que o bebê está tranquilo, a filha maior está brincando com ele e a mãe, e não há uma montanha de louça para lavar (caso em que eu não estaria aqui escrevendo, mas sim, lavando a tal pilha de louça.)

Mentalmente é difícil ficar depressivo enquanto você está no meio de um esforço de produção criativa. Eu não consigo digitar esta frase e concatenar todo o material mental que eu preciso para alimentar o lado intelectual da minha depressão ao mesmo tempo. (Claro, a química está toda lá, mas estou ativamente ignorando-a no momento.)

Então, consigo lidar com a ansiedade e ser criativo ao mesmo tempo? Estou fazendo isso agora, mas deixa te contar, as abelhas são barulhentas. Preciso urgentemente de um café (e todo bom adepto da auto-medicação sabe que a cafeína ajuda com a ansiedade), e então, quando acabar de escrever isso para você, vou fazer um café na minha caneca de sempre, passado no filtro individual, já que só eu tomo café aqui.

Interações sociais são uma coisa completamente diferente

Eu tenho o imenso prazer de conhecer milhares de pessoas através do trabalho que faço. Eu já passei momentos únicos ao lado de pessoas muito inteligentes e especialistas em suas áreas. Quer saber? Eu provavelmente já passei algum tempo com você, se você está lendo isso. Muito provável.

Mas sou também um introvertido por natureza. Eu gosto de doses de interação social. Eu gosto de falar com as pessoas intensamente por um tempo, e então posso não entrar em contato para nada, por anos. Nunca há um pensamento negativo associado a isso pelo meu lado. Eu apenas acho que as pessoas todas tem vidas ricas e completas, e que realmente não precisam estar em constante contato com todos com quem já se encontraram.

A depressão bagunça as interações sociais. É uma mistura estranha. Você não deseja mesmo contato com ninguém porque está preso na piscina de cola da depressão. Mas você se sente mal quando outros não entram em contato aleatoriamente com você. Este é um dos grandes problemas dos relacionamentos: ninguém lê mentes. Você pode desconsiderar a “leitura de mentes” nos outros rapidamente, mas com depressão, muitas das nossas regras desabam.

E há o aspecto de simplesmente não conseguir fazer nada. E há coisas que precisam ser feitas. As realmente urgentes, acabo fazendo. Tenho sistemas de apoio que não me deixam extrapolar os prazos. Normalmente quando estou no fundo do poço, faço essas coisas no último minuto, mas faço. Pagar contas, por exemplo. Há gente que depende de mim para seus negócios, para seus lances no consórcio, coisas desse tipo… A ética profissional embutida no meu DNA não deixa que eu falhe nisso, mas deixa te contar, é um esforço sobre-humano.

O problema de não conseguir fazer nada é exatamente o de decepcionar exatamente quem eu não poderia decepcionar mais: eu mesmo. Quando estou no fundo do poço, sou o último a receber um agrado. Então se um cliente liga com um problema, resolvo o problema. Já se alguém que ainda não tem relacionamento profissional comigo entra em contato para dizer que gostaria de contar com minha ajuda, a piscina de cola me prende de tal forma que deixo aquele email lá guardado, para ser respondido depois, com mais calma, com mais dedicação, com mais atenção… E isso pode demorar uns dias… Ou mais… As pessoas boas relevam esse tempo, entram em contato novamente, pensam que o email possa ter sido extraviado, e, se o novo email chega em um bom momento, consigo responder de imediato e eventualmente fechar negócio. Se não, provavelmente foi uma porta que se fechou justamente em um momento em que mais precisaria de portas se abrindo na minha frente.

Interações sociais também podem ser desafiadoras. Especialmente na era do Instagram e Facebook. Porque você tem a prova visual (e a falácia mental) de que você está tendo a vida social menos divertida e mais desagradável de todos que você conhece. Porque claramente (por favor liguem seus filtros de sarcasmo) todo mundo posta um pouquinho de suas vidas no Instagram e no Facebook, e não apenas as melhores partes selecionadas a dedo para parecer ainda melhor do que são.

Dicas de mídias sociais para pessoas “quebradas”

  • Se você está no auge da sua depressão/ansiedade, fuja do Facebook e do Instagram. O que você menos quer é aquela sensação falsa de que todo mundo está se divertindo, menos você.
  • Tudo bem postar em algum lugar que você está se sentindo para baixo. Você precisa procurar sua própria ajuda.
  • Compartilhar completamente seu buraco emocional não irá lhe beneficiar mais tarde. É perfeitamente bom/importante/incentivado dizer, “Pois é, lidando com alguma depressão no momento.” Mas pare por aí. A não ser que você vá falar sobre como seu trabalho está indo bem.
  • Outras pessoas ficarão desconfortáveis quando você falar destas coisas. Tente manter o assunto leve, fácil, e se você puder, tranquilize um pouco a mente das outras pessoas.
  • Dormir é importante. (O suficiente, não demais.) Algumas vezes, nos perdemos em video games, maratonas de seriados no Netflix, e coisas desse tipo. Temos que limitar este tipo de estímulo próximo da hora de dormir. Você verá mais claramente no dia seguinte.

E aqui segue uma coisinha que normalmente me incomoda: Não se preocupe em gritar adeus se você tiver que dar uma pausa em alguma rede social. Está tudo bem se você não responder um comentário ou alguma menção. Simplesmente desapareça pelo tempo que você achar necessário, e volte quando desejar. (A não ser que seja seu trabalho, e aí, comece a trabalhar com as pessoas sobre contingências.)

É como quando você decide sair de uma festa “à francesa,” ou seja, sem avisar ninguém. Você simplesmente desaparece. Só vale se realmente ninguém nota que você se foi.

Eu acredito que em mídias sociais, sair à francesa é a melhor maneira de lidar com a depressão. Mas se você precisa estar lá e manter presença, então produza mais do que responde e olha da postagem dos outros. Essa é a regra de ouro.

No fundo do poço, mas não sempre

Claro que parece que algumas vezes tudo me arrasta através do poço de cola. Minha cabeça parece cheia nestes momentos. É como estar mergulhando na piscina, tudo lento e com o som abafado.

Nos momentos ruins, não consigo ir em frente. Não há momentum. Em horas melhores como a que estou usando agora para escrever isto, é como se um raio de sol surgisse por um lapso de tempo. Você consegue sorrir um pouco. Você pensa de forma coesa sobre o que deseja realizar.

Então isso não é uma coisa de “sempre.” Não é sempre escuridão. Na verdade, muitas pessoas lidam com o stress, ansiedade e depressão usando a comédia como ferramenta. Comediantes profissionais geralmente lidam com vários níveis de depressão. Infelizmente, perdemos algumas das pessoas mais engraçadas para o suicídio. Parece haver uma relação próxima entre a atividade de comediante e a depressão. O nome Robin Williams te lembra de alguma coisa?

Pessoas com depressão RIEM!

É muito importante se dar conta que a depressão e a ansiedade e todas essas coisas nem sempre impedem sua habilidade de amar e de rir. Você pode lidar com a depressão e amar. (Você pode ser um FDP mais seguido, então se prepare para pedir mais desculpas e consertar as coisas com mais frequência.) Você pode ter ansiedade e encontrar ótimos motivos para rir.

Claro, é o fundo do poço, mas não o tempo todo.

Traga todas suas falhas para o trabalho, e descubra como você pode obter sucesso mesmo que você esteja “quebrado.”

E só para deixar claro, está tudo bem por aqui. Afinal de contas, olha o tamanho do texto que saiu 🙂

Espero ter ajudado. E que nós tenhamos muitos dias de sol. Feliz 2020.

Autor: Fabricio S. Peruzzo

Pai, marido, polímata, empreendedor, curioso. Tranquilidade financeira é qualidade de vida.

2 comentários em “No fundo do poço – Depressão, ansiedade, e trabalho”

  1. Prezado Fabrício, boa tarde! Espero que consiga tudo o que almeja, a depressão é algo muito comum, infelizmente, porém temos que ver o quanto a nossa vida é boa, o quanto a nossa família é maravilhosa, e o quanto podemos agregar e ajudar as pessoas e mudar suas vidas. Parece que este é seu trabalho, inspirar e ajudar as pessoas, pois muitos gostariam de ter o seu conhecimento e os objetivos alcançados por você. Sucesso e felicidades sempre! Forte abraço! Wanderson Bruno de Almeida

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