Pequenos rituais

Vivemos em uma sociedade de excessos, tudo é rápido, o imediatismo impera.

lp

Vivemos em uma sociedade de excessos, tudo é rápido, o imediatismo impera. Não nos damos conta de menos ser mais.

Faça uma rápida comparação mental (se você tiver mais de 30 anos) entre as diferenças na sua percepção e na experiência pessoal de ouvir música na época dos LPs, dos CDs e hoje, com os MP3.

Eu tinha poucos LPs. Tratava-os com cuidado, eram frágeis, arranhavam se eu fosse descuidado. Cada um tinha uma história sobre sua aquisição. A maioria continha encartes com as letras das músicas, fotos dos artistas. Ouvia as músicas me imaginando no show. E havia um ritual, abrir a tampa do três-em-um, pegar o LP, tirar do envelopão, cuidando para deixar dentro o plástico protetor. Colocar com cuidado no prato, apertar o botão e olhar o braço levantando, andando, repousando sobre o discão.

A facilidade e grande quantidade de músicas a que temos acesso hoje em dia torna essa experiência bastante superficial. Muita agilidade, muita rapidez, excesso.

Falta tempo para maturar as idéias. É como são a maioria dos blogs. Textos cuspidos de forma serial. Não este, claro. Neste, escrevo minhas idéias em um caderno moleskine usando uma caneta tinteiro Mont Blanc. É uma pequena praticidade a que me dou o direito de abusar. Penas, tinteiros e mata-borrões fariam muita sujeira e bagunça.

O tempo gasto para afiar a pena, molhar no tinteiro, passar o mata-borrão, era usado para pensar no assunto antes de escrever.

Vamos em frente. Mas em uma velocidade que nos permita apreciar a paisagem.

Crédito da foto: roel1943

Autor: Fabricio S. Peruzzo

Pai, marido, polímata, empreendedor serial, curioso.

8 comentários em “Pequenos rituais”

  1. Mas sobre essa questão dos blogs, eu geralmente penso o contrário. Encontro tanta coisa boa na internet que me agonia o fato de não poder ler tudo (!).

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  2. Marinella,

    O problema é que para ler tudo, deixamos de ter tempo para pensar sobre o que lemos. O segredo é simplesmente nos darmos conta de que o mundo é maravilhoso, cheio de gente maravilhosa e que nunca teremos condições de absorver tudo que ele pode nos proporcionar.

    Por exemplo, vai saber se não existe na Moldávia, um cara com textos tão bons quanto os do Luis Fernando Veríssimo? Ou os textos de um amigo, colega da PUC, que só brinda os conhecidos com suas elocubrações geniais dispensando a ovação das massas. Então mesmo que pudessemos, não teríamos acesso a toda genialidade do mundo.

    Por fim, como escreveu Schopenhauer, devemos ler menos o que os outros dizem e produzir mais do nosso próprio pensamento. Ler demais significa pensar de menos. Ler, mas na medida certa.

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  3. Caro Fabricio,
    Adorei o seu texto, você tem razão ao narrar o ritual de ouvir música há 10, 15 anos atrás, eu também tive bolachões que eram tratados com milhões de cuidados. Você só esqueceu de descrever uma parte do ritual que era ouvir os LPs: na hora que o lado A acabava aquela girada que a gente dava no disco pra colocar o lado B. Aquela girada meu caro amigo, não tem preço.
    Aquele abraço pra você.

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  4. Olá Fabrício,
    Encontrei alguém com algum tempo ou que vê e sente a vida e não passa por ela.
    Ainda outro dia, conversava em casa sobre esta questão, inclusive acredito que o pouco tempo dedicado a ler, pensar, refletir, saborear etc. levou o século XX, com ressalvas, o que aliás continua, ainda mais acelerado no século XXI, a maneira de fazer as coisas, de lidar com o tempo, DE CRIAR. Estamos no máximo, fazendo cópias, reeleituras etc.
    Abraços!

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