Há dois meses fizemos uma road trip pelo estado. Nos destinos finais passamos por Santa Maria, onde visitamos um amigo de infância. Esse amigo tem um carro mais antigo, mas essa é outra história. A parte que importa é que ao me mostrar o carro, sair para dar uma volta, um dos tópicos foi o de que em carros mais antigos é bom não ligar e desligar rapidamente o mesmo, mas sim ligar, sair devagar para uma voltinha, fazer os fluidos circularem, lubrificando o motor. Eu guardei essa informação.
Ontem fui ao supermercado. Caminhando. Normalmente é sair pela esquerda do prédio, dobrar à direita na esquina e seguir por duas quadras. Ontem virei à direita, e fui pelo caminho mais longo. Foi o suficiente para me movimentar um pouco mais, energizar o cérebro, e pensar na escrita deste texto.
Gosto muito de desenho e pintura. Pratico pouco, confesso. É algo que pretendo corrigir. Gosto da ideia e estilo do Urban Sketch, ou seja, sair por aí sem pressa, desenhando o cotidiano, os prédios comuns, as pessoas na praça. Desenho rápido, sem complicações e grandes pretenções. Um caderno, uma caneta, eventualmente um conjunto portátil de aquarela. Viajar com essa prática também é ir pelo caminho mais longo, sem pressa em visitar lugares, rapidamente fotografar e sair correndo para o próximo ponto turístico.
Ano passado comprei um Porsche 911. Exatamente o modelo que queria, um 997.2, Carrera 4S com tração integral. É um carro com menos da metade da idade do carro vintage do meu amigo de Santa Maria. Não é um carro exatamente antigo, tem todos os sistemas eletrônicos de segurança necessários, ao mesmo tempo que mantém tudo o mais analógico. É o sweet spot, o esportivo perfeito. Foi meu primeiro carro “por que eu quero e posso”. Não é um carro necessário, é extravagância, é sonho de menino, é hobby. Não trato ele como peça de exibição, é um carro feito para rodar, não para ficar na garagem. Tem uma entrevista com o Seinfeld (humorista conhecido também por sua paixão e enorme coleção de Porsches) em que ele explica que diferente de outras marcas de carros esportivos em que seus donos só usam para passeios de fim de semana, um Porsche, mesmo os modelos mais esportivos como o 911, são feitos para rodar. Que na hora da morte, ao chegar ao céu e ser perguntado por São Pedro a quilometragem do seu carro, o dono de Porsche com a menor quilometragem perde.
Lembrando da conversa com o Rafael (meu amigo lá do primeiro parágrafo), desde então, nunca mais saí rápido com meu carrinho. Sempre me programo para sair mais cedo, indo pelo caminho mais longo, sem pressa, aquecendo o motor, fazendo os fluidos fluirem por todas as engrenagens, acelerando mais forte para lubrificar bem todas as peças, curtindo o passeio, a vista, o ronco do motor e a música no rádio.
Para você, qual é o caminho mais longo? Já está percorrendo ele?

