Sobre a Morte

Li sobre a história de Randy Pausch no blog do Alessandro Martins. Assisti o video do Wall Street Journal sobre o assunto e depois fui assistir o video completo da palestra de Randy Pausch. Somente após isso é que fui ler os textos do Paulo Polzonoff Jr e do André.

A história do Randy foi publicada na revista Veja desta semana, a que tem o Che Guevara na capa. A reportagem da Veja está infinitamente melhor e mais completa que o vídeo do WSJ.

Me parece que algumas pessoas fazem comentários sem saber de toda história. Com isso podem ser mal interpretadas. O Paulo foi um deles, mas é desculpado pelo fato de escrever em seu texto que escrevia tendo como base apenas a reportagem do WSJ. Digo o mesmo da maioria dos comentários que li no site do Paulo. E fico um pouco triste com isso, porque com a pressa em escrever sobre algo que não absorvemos por completo, corremos o risco de perder o melhor da mensagem, a melhor experiência, a verdadeira lição. Então sugiro que você que está lendo isto aqui e compreenda suficientemente o inglês vá imediatamente assistir o video completo. São quase duas horas de palestra, mas realmente valem a pena.

Para quem continua comigo, seguem minhas pequenas considerações e resumo da palestra.

Randy Pausch é professor de computação da Universidade Carnegie Mellon. Há um ano teve diagnosticado câncer no pâncreas, um dos piores que existem. Há um mês seu estado piorou e foi-lhe dado três meses de expectativa de vida. Ele em breve deixará a esposa, três filhos pequenos e uma infinidade de amigos.

Os americanos têm o hábito de convidar pessoas bem sucedidas em seus campos a fazer palestras do tipo “o que eu gostaria de deixar para a posteridade se esta fosse minha última palestra”. No caso do Randy, provavelmente seja o caso.

A palestra gira toda sobre “Como Realizar Seus Sonhos de Criança”. Randy começa com um pouco de humor negro com algumas piadas sobre sua situação, mais ao seu estilo do que uma palestra direta e emocional. Se joga no chão, faz alguns apoios com um só braço, fala que está se sentindo ótimo e em perfeita forma física. E então parte para a palestra real.

Começa apresentando os assuntos dos quais não vai falar:

  • câncer
  • coisas mais importantes do que os sonhos de criança: sua mulher e filhos
  • Espiritualidade e Religião: sua conversão no leito de morte

Sobre esta última ele completa que realmente passou pela experiência de conversão no leito de morte: comprou um Macintosh!

Com uma pequena lista de sonhos de infância, Randy descreve um a um, como os realizou e o que aprendeu nesta caminhada para permitir que cada um de nós consigamos realizar nossos sonhos. Confesso que estou no estado mental adequado para este tipo de palestra. Estava no meio da leitura do livro Nunca Desista de Seus Sonhos, do Augusto Cury.

Seus sonhos de criança eram os seguintes:

  • Estar em gravidade zero
  • Jogar na Liga Nacional de Futebol Americano
  • Escrever um artigo na World Book Encyclopedia
  • Ser o Capitão Kirk
  • Ganhar animais de pelúcia
  • Ser um Disney Imaginner

Estar em gravidade zero

É importante ter sonhos específicos. Randy não sonhava em ser um astronauta. Ele sabia desde cedo que astronautas tinham que ter saúde perfeita e isso incluia não usar óculos. Ele não queria ser astronauta, queria estar em gravidade zero. Já como professor de computação gráfica, descobriu que a NASA tinha programa de incentivo a pesquisa científica que dava como prêmio um passeio no “avião do vômito”, um avião de treinamento de astronautas que faz vôos parabólicos, simulando gravidade zero. Seus alunos ganharam o primeiro lugar. Mas seu sonho ainda não havia sido realizado. Uma das regras do concurso era que os professores não eram permitidos de fazer o passeio. Sua primeira lição na palestra: os muros de concreto que colocam na nossa frente servem para mostrarmos o quanto realmente queremos alguma coisa. Os muros de concreto não estão lá para nos impedir de realizar nossos sonhos, estão lá para impedir os outros, os que não sonham. Lendo atentamente as regras do concurso ele achou uma brecha. Os alunos poderiam levar consigo um jornalista de alguma publicação local. No dia do passeio lá estava o Randy com dois documentos: sua demissão como professor e seu contrato de trabalho como jornalista da escola. Primeiro sonho realizado!

Jogar na Liga Nacional de Futebol Americano

Esse sonho não foi realizado. Ele treinou com um dos melhores técnicos que poderia treinar. Um técnico que treinava sem bola. Quando seus pupilos perguntaram onde estavam as bolas para eles treinarem a resposta veio com uma pergunta: quantos jogadores têmos no campo, contando os dois times? Quando os alunos responderam 22 o técnico foi direto ao ponto: então treinaremos apenas os 21 que em cada momento estão sem a bola nas mãos! Não realizou este sonho, mas aprendeu as lições que tinha a aprender. Aprendeu os fundamentos do jogo. trabalho em grupo e o poder do entusiasmo.

Escrever um artigo na World Book Encyclopedia

Em uma época em que as casas possuiam grandes enciclopédias, a World Book era o livro dos livros. Tudo podia ser encontrado lá. Todos os assuntos. Depois de se tornar uma autoridade no assunto de realidade virtual o pessoal da World Book entrou em contato e ele escreveu um artigo sobre o assunto. Termina este tópico dizendo que conhecendo o controle de qualidade de uma enciclopédia de verdade acredita que a Wikipédia é uma boa fonte de informação atualmente. Deixaram “ele” escrever um dos tópicos!

Ser o Capitão Kirk

Em algum momento você se dá conta que algumas coisas não são possíveis. Então temos que adaptar. Esse sonho foi trocado por conhecer pessoalmente o Capitão Kirk ou no caso, o ator William Shatner.

Depois do ator escrever um livro sobre a ciência da série Star Trek, falando das tecnologias que apresentavam e como algumas dessas estavam se tornando objetos reais, a equipe do Randy foi chamada para criar um mundo virtual representando o Deck de Controle da Star Trek.

É muito legal conhecer seu ídolo de infância. Mas é ainda mais legal quando seu ídolo de infância vem ao seu laboratório admirar as coisas que você faz lá.

Ganhar animais de pelúcia

Randy sempre olhava admirado as pessoas que ganhavam os grandes ursos de pelúcia nos parques de diversão. Queria ser como elas. Então mostrou uma série de fotos da família com os grandes ursos de pelúcia. Mas sabe como funcionam essas coisas de edição de imagens e manipulação digital… Então trouxe diversos dos ursos que ganhou para o palco 🙂

Ser um Disney Imaginner

Esse foi um dos sonhos mais difíceis de realizar. Um Disney Imaginner é um engenheiro da Disney. É alguém que trabalha para ajudar as pessoas a realizar seus sonhos. Pode ser um engenheiro, um desenhista, um carpinteiro, não interessa o que faça. O importante é o sentido de realização de saber que seu trabalho ajuda as pessoas a realizar seus sonhos, a se divertir.

Encurtando uma longa história, depois de muito trabalho e várias coisas que fizeram em conjunto ele finalmente foi convidado e se tornar um Disney Imaginner. E recusou!

Na verdade, deixaram a porta aberta e fizeram vários trabalhos depois disso. Ele ia para lá todas as semanas. Essa é uma das vantagens da carreira acadêmica, dá para manter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo.

Fala um pouco então de um de seus alunos. Em 1993 contou seu sonho a Randy: trabalhar na equipe dos novos filmes da série Star Wars! Randy tentou alerta-lo: “Você sabe que esses filmes provavelmente nunca serão realizados”, ao que Tommy respondeu: “Eles serão!”

Temos que ter cuidado com nossos sonhos. Eles se realizam.

Ele então fala de seus projetos atuais em conjunto com a Eletronic Arts, fala do jogo The Sims e sua participação e fala do Projeto Alice, que é um simulador semelhante ao The Sims com o objetivo de ensinar computação e criação de roteiros para as crianças. Sugiro assistir ao vídeo, então não vou descrever os detalhes desta parte.

No final da palestra ele fala de pessoas importantes em sua vida e coisas que aprendeu com elas. Todas são interessantes, mas vou me concentrar em apenas uma delas aqui. Ele fala da importância de se preocupar mais com os outros do que consigo mesmo. Então ele estava lá, preparando sua “Última Palestra”. Então dando um exemplo prático do que quer dizer com se preocupar mais com os outros do que consigo mesmo, conta que no dia anterior era o aniversário da esposa, interrompe a palestra com a entrada de um enorme bolo de anoversário e pede para todos os presentes cantarem parabéns para ela!

Ele termina a palestra com dois “head fake”, um termo que explica uma coisa que na verdade significa outra coisa.

O primeiro “head fake” é que a palestra não é sobre como realizar seus sonhos e sim como viver sua vida. Se viver sua vida com valor, o Karma se encarregará de realizar seus sonhos.

O segundo “head fake” é que a palestra não era para o público presente. Era para seus filhos, Dylan, Logan e Chloe.

Autor: Fabricio S. Peruzzo

Pai, marido, polímata, empreendedor serial, curioso.

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