Como acumular o capital inicial necessário para investir

Essa semana um amigo lançou uma questão em uma das listas de discussão que participo. Resumidamente, o que ele queria saber era como o pessoal da lista fazia para acumular o capital necessário para investir. As pessoas que participam desta lista costumam discutir os livros da série Pai Rico, Pai Pobre, do Robert Kiyosaki. As vezes as coisas costumam ficar meio vagas, principalmente quando o assunto é ganhar dinheiro e investir sem ter capital inicial.

Seguem alguns pedaços do e-mail dele, levemente editado por mim, e logo a seguir uma longa resposta que enviei a todos da lista…

Deixem-me compartilhar uns pensamentos com vocês.

Sempre acreditei que, em matéria de ficar rico, o nome do jogo é capitalismo. E o primeiro passo é acumular capital.

E pra acumular capital – capital inicial – importa mais esforço e dedicação que grandes jogadas.

Então minha meta é acumular capital. Acho que nós aqui falamos muito de rentabilidade sem mencionar como acumular capital. Devíamos falar um pouco sobre o mecanismo mais básico, o “poupar e investir”, em vez de “em que investir”. É como falar de cursar engenharia, sem ter feito a lição de casa de matemática.

Eu não arrumei outro jeito que não esse: É guardar pedaços do salário e investir em coisas que não paguem (muito) imposto. Agora estou comprando um apto (fechando hoje) e não vejo como bancá-lo na fase de construção que não por meio de dinheiro próprio.

Por que não falamos mais de o que temos que fazer no nosso dia-a-dia pra conseguir acumular capital pra investir? Ou sou só eu que ainda invisto o MEU capital?

De onde vc descola o SEU capital pra investir? Eu por exemplo, dou aulas extras e corto um ou outro gasto que não me faça falta, visando 20% do total, e invisto em ações e fundos imobiliários (e agora, apartamentos na planta).

E vocês, o que fazem?

Abraços,
fp

Segue minha longa resposta…

Eu acredito que o “zero absoluto” em relação a um capital inicial não existe. O que existe é um caminho que tem que ser trilhado. O início de quase todo mundo é zero, mas logo passamos pelo colégio, pelos amigos, pela família… Vamos acumulando experiências e ganhando um dinheirinho com o próprio trabalho.

As vezes, aparece alguma boa oportunidade. Se estivermos de olhos abertos e estudamos o suficiente sobre o assunto de tal oportunidade, podemos conseguir aproveitá-la. E assim, conseguimos ganhar uma pequena bolada que mesmo não sendo muita coisa, costuma ser bem mais do que conseguimos economizar com o próprio trabalho.

A partir daí é que começamos a ver as diferenças entre as pessoas que buscam com vontade a independência financeira, e as que estão aí só pra fingir que buscam – os sonhadores que esperam a fortuna cair do céu.

Imaginem que uma pessoa que trabalha com Internet e ganha R$ 2000 por mês. Imaginem ainda que esta pessoa consiga viver com R$ 1800 e economizar R$ 200 todos os meses. Em um ano, terá conseguido economizar R$ 2400. Agora vamos pensar o que aconteceria se aparecesse um trabalho extra que poderia ser feito no tempo livre durante um mês e que pagaria R$ 5000. Não é toda hora que aparece isso. Mas estando de olhos abertos e procurando um pouco, com certeza aparece.

Quando eu disse que nosso amigo acima conseguia viver com R$ 1800, podemos incluir nisso os custos para manter um carro, ou talvez não. Se tivesse o carro, os custos estariam contabilizados. Se não tivesse, ganhar uma bolada suficiente para comprar um carro usado não seria o suficiente para a manutenção do mesmo.

No final, o importante é saber o que fazer com esse dinheiro extra ganho. Se simplesmente comprarmos algo que não vai fazer esse dinheiro crescer, teremos um pequeno luxo novo, não condizente com nosso salário. Se comprarmos algo que vai nos dar mais despesas, por exemplo, um carro, teremos um luxo novo que vai apertar nosso padrão de vida ou que vai exigir que paremos de economizar o pouco que conseguiamos. Ou pior ainda, vai exigir que trabalhemos mais, não para conquistar nossa independência financeira mais rápido, e sim, para bancar esses novos luxos que ainda não são possíveis para nossa faixa de renda.

O nome do jogo é Capitalismo. O problema é que as pessoas não conhecem as regras do jogo. E as que conhecem as regras não costumam conhecer a estratégia certa que sempre leva à vitória:

  1. Trabalhe para ganhar dinheiro e gaste menos do que ganha.
  2. Invista a diferença entre o que ganha e o que gasta para viver. Esse valor não deve ser menos de 10% do que se ganha.
  3. Quando aparecer oportunidades extras de ganhar, use o que ganhou para aumentar o bolo dos investimentos, não para comprar luxo e conforto. Eventualmente, compre um pouco de conforto com parte do que ganhou, mas um tipo de conforto que não aumente as despesas básicas mensais.
  4. Estude para aumentar os ganhos básicos e aumentar o padrão de vida, aumentando junto as quantias economizadas.
  5. Repita os passos anteriores até que os rendimentos dos investimentos sejam o suficiente para manter o padrão de vida conquistado, indefinidamente. Um número adequado seria vinte vezes o salário anual.
  6. Continue trabalhando e ganhando dinheiro além dos rendimentos de forma a aumentar os investimentos para que eles sejam suficientes para manter um padrão de vida maior do que o seu de costume, se quiser isso. Ou simplesmente aproveite a independência financeira, viva de renda e faça o que quiser no tempo que antes era usado para trabalhar por um salário.

Conheço muita gente que seguiu esses passos durante uns 10 ou 15 anos. Depois de ter atingido a independência financeira para o padrão de vida a que estavam acostumados, muitos simplesmente continuaram trabalhando e economizando, aumentando o padrão de vida com segurança e consistência. Outros trocaram o emprego por outro que gostassem mais, mesmo recebendo um salário menor. Outros se aposentaram para se dedicar a algum hobby. Alguns poucos abriram empresas e puderam se dedicar totalmente a elas sabendo que teriam o dinheiro para viver enquanto a empresa estava iniciando. Uma empresa assim não tem como dar errado. O segredo é a dedicação total do dono, em uma área em que ele goste e conheça, sem que ele precise fazer “bicos” para se sustentar enquanto a empresa não der lucro.

Uma forma de fazer a mesma coisa é começar bem mais cedo. Abrir a empresa enquanto vive com os pais, por exemplo. Pena que não são todos que tem a “vontade” de abrir mão de festas, skates, passeios, roupas da moda enquanto são jovens. Eu fiz isso. Nunca deixei de viver, ia ao cinema, viajava, me divertia. Mas enquanto tinha amigos que faziam isso todos os dias, eu fazia com mais moderação. Se ia no cinema em um fim de semana, não saia para fazer festa. Se viajava no outro fim de semana, provavelmente ficaria em casa no seguinte, sem cinema e sem festa. Saía com os amigos, passeava no shopping, mas não gastava tudo que tinha.

Quando me formei, saí de casa e abri minha empresa ao mesmo tempo. Tinha juntado o suficiente na minha adolescência (consertando computadores, instalando programas e dando aulas) para viver por 1 ano. Se tivesse ficado na casa dos meus pais durante esse início da empresa, teria dinheiro para me manter por mais de 3 anos. Então eu tinha tranquilidade suficiente para saber que poderia me dedicar a empresa sem precisar fazer “bicos” que tirariam meu foco.

Alguns amigos que não me conhecem muito bem costumam me chamar de pão duro. Falam isso porque eu não costumo gastar meu dinheiro em coisas supérfluas que não me acrescentam nada. Essa impressão deles não me afeta, não dou bola. Na realidade, eu compro muitas coisas por impulso. Coisas caras e desnecessárias. Mas são coisas que me dão satisfação pessoal. Então por um lado, eu decido não acompanhar eles no cinema para ver um filme qualquer de suspense. Eles acham que é pão durismo. Eu sei que é devido ao fato de não gostar de filmes de suspense. Iria se fosse uma aventura, por exemplo. Por outro lado, eu compro mais máquinas fotográficas do que tenho tempo para usa-las. Tenho desde máquinas TLR de 1955 e SLR profissionais até as mais modernas câmeras digitais. Essa é uma das coisas que me agrada e me satisfaz. Mesmo eu sabendo que não consigo usar essas máquinas todas o suficiente para justificar o valor delas. É um dos meus hobbies. Já tive outros, como colecionar computadores antigos. Posso me dar a esses luxos porque não gasto com outras coisas que não me são importantes. Usar um tênis de R$ 400, por exemplo. Gosto dos meus de R$ 120, comprados na promoção por R$ 80. Todos 3 que comprei para aproveitar a promoção sabendo que durariam por vários anos. Notem que não estou criticando quem compra os tais tênis de mais de R$ 400. Só estou dizendo que para fazer isso, tem que se abrir mão de alguma outra coisa. No meu caso, as máquinas fotográficas são mais “importantes” do que os tênis da moda. Poderia comprar os dois, mas aí teria que abrir mão de alguma outra coisa…

Tudo é questão de escolhas. Cada um faz as suas. Pessoalmente, eu ainda estou no processo de melhorar um pouco mais meus gastos por impulso. Notebooks, câmeras fotográficas e aparelhos eletrônicos são meu ponto fraco. Compro sabendo que não vou usar o suficiente para justificar a compra. Mas tenho melhorado nisso. Ainda não tenho um iPod. Na verdade tenho, mas é um Shuffle 512k comprado por R$ 220 (custa 660 nas lojas, comprei usado de um amigo que estava trocando por outro melhor). Quem usa é minha esposa, dei de presente para ela ouvir música quando vai para faculdade. Tenho coceira nos dedos cada vez que vejo uma foto do iPod Video. Mas sei que não preciso de um. Não sou o tipo de pessoa que sai na rua com fones de ouvido. Nem gosto muito de usar fones de ouvido. Gosto de ouvir os pássaros, os carros, as pessoas. Eventualmente sei que vou comprar um. Mas um que sirva para ouvir música no aparelho de som da sala, no carro, e que ainda transporte meus arquivos do computador de casa para o escritório. Um drive móvel de backup que por acaso toca música. Provavelmente será um iPod Photo ou até mesmo o iPod Video. Mas vou acabar comprando quando já tiverem sido lançados mais dois ou três modelos mais novos, quando o preço estará bem menor. Se existisse iPod uns 10 anos atrás, provavelmente eu teria um de cada modelo existente. Tenho 6 Palmtops assim.

Não costumava vender meus “brinquedinhos” quando comprava o modelo novo. Um pouco por comodismo, mas mais por apego mesmo. Estou mudando isso. De tempos em tempos faço uma limpa nas coisas e anuncio tudo no Mercado Livre. Vendi 5 Palmtops nos últimos 24 meses (sim, além dos 6 que ainda tenho e não coloquei ainda à venda). Minha próxima tarefa é vender minhas máquinas fotográficas. Ficar só com duas. Uma que minha esposa usa atualmente, muito compacta e prática porque está sempre na bolsa dela. E uma que ainda vou comprar, para deixar sempre na minha pasta. 🙂

Como é meu costume, divergi um pouco do assunto inicial. Mas acredito ter passado alguns pontos que considero importantes. Somos resultado direto de todas as escolhas que fazemos a cada segundo. Será que temos feito as escolhas certas?

Autor: Fabricio S. Peruzzo

Pai, marido, polímata, empreendedor serial, curioso.

3 comentários em “Como acumular o capital inicial necessário para investir”

  1. Segue o comentário de um amigo da lista:

    Eu acredito que entrar na mesmice do consumo é o que não leva ninguém a acumular capital e sair da condição de assalariado.

    A visão é simples aos olhos de quem já enxergou. Gera comportamentos como os dos amigos do Fabricio ( e os meus ) em quem ainda está com a cultura do consumismo.

    Pois bem, será que todos nós não temos capacidade de aculumar capital abrindo mão do consumismo? Temos e acho que muitos desta lista já abriram os olhos para isso. A diferença entre o sucesso financeiro e o fracasso, para mim , é resumido numa palavra: consumo. Ao posso que, as pessoas que controlam seus impulsos consumistas, têm mais facilidade de guardar dinheiro. Você pode entender o consumo que coloco aqui, como sendo o padrão de vida que cada um escolhe para si. Acredito que o aprendizado para quem já adquiriu o comportamento de guardar dinheiro é algo que flui como ideologia. Pois, quando se guarda uma coisa, naturalmente, se busca conhecimento para saber o que fazer com algo que está guardado.

    Nós temos uma avalanche de publicidade para nos ensinar a consumir e depender do sistema capitalista. Algo tentador a primeira vista. Mas que, no fundo, com pouca leitura sobre sistema pelo qual nosso mundo passa, já se percebe as formas de sair desta armadilha.Mas, esquecem os sonhos utópicos, a esmagadora maioria sempre vai depender e morrer acreditando nisso que o sistema prega.

    Não é fácil. É uma minoria que se sobresai, que consegue enxergar além e ter uma visão diferente da maioria, a qual nos taxa de pão duro, socialista, mal vestido ( só por que não usamos o tênis de 400,00 ).

    Meu sonho ainda está em pé. Basta, na minha atual posição, continuar estudando ( não estudando para para ganhar salários mais altos como a maioria ), para poder, cada vez mais, enxergar o mundo que os donos do poder não querem que enxergamos. Continuar com minha visão poupadora ( amigos desta lista, os quais me ajudaram a aperfeiçoar essas idéias ), para num futuro colher os frutos de, no mínimo, fazer diferente. Indo contra o que o mercado consumista e conservador nos impõe.

    Abraços,
    Pablo Cantu

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  2. Realmente este problema de alcançar um capital inicial é algo que na minha opinião somente é obstáculo para aqueles que realmente não querem trilhar o caminho da independencia financeira.

    O problema é que a maioria quer ficar rica rapidamente, e isso, sem dúvida nenhuma é uma excessão !
    Para estes casos somente o fator sorte é que pode explicar. Certamente já vimos histórias de pessoas que ganharam boladas milionarias comprando opção de ações, realmente é tentador , mas fora a sorte a maioria acaba fracassando e volta para onde um dia esteve. Sem nada.

    A solução é simples é trabalhar, investir o máximo que puder, e perseverar pois você colherá os resultados ao longo do tempo.

    Aconselho aos interessados a acessarem o site
    Passos para riqueza , e analisarem um software muito inteligente, o qual será uma ferramenta muito útil a quem realmente quer trilhar o caminho para a independencia financeira.

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