Estava descansando hoje a tarde… Mentira, estava DORMINDO hoje a tarde, depois de ter acordado cedo para ir visitar Alcatraz (e não ter visitado, pois não tem visitas este mês) e voltado para casa depois do almoço, quando, naqueles minutos entre o despertar e o levantar da cama, fiquei pensando na situação de um amigo e em algumas perguntas que gostaria de fazer a ele. Ainda deitado, pensei que estas perguntas, feitas de maneira mais genérica, poderiam render um texto interessante para os leitores do Moeda Corrente. Então levantei da cama, porque sábado, assim como qualquer outro dia na vida de um empreendedor é dia de trabalhar, e aqui estou com a primeira pergunta:
Quando você irá se aposentar?
Pensei em fazer especificamente esta pergunta, porque este amigo tem vontade de ser empreendedor, em ter um negócio próprio, em montar uma empresa, mas a impressão que tenho sobre isso é de que na verdade o que ele procura é apenas um atalho para “como conseguir ganhar dinheiro suficiente para me aposentar e poder realmente fazer o que desejo”.
Entre dizer que deseja algo e realmente dar os passos necessários para atingir este objetivo, há uma grande diferença. No caso específico deste amigo, falo da “vontade” de ter um negócio próprio. O que vejo de fora nesta situação, com os olhos da experiência de quem já fez o que é necessário para viver de suas próprias habilidades empreendedoras, é uma certa romantização do empreendedorismo, da mesma forma que aspirantes a escritor romantizam como seria a vida e o dia a dia dos grandes escritores. A realidade normalmente é bem diferente do que imaginamos 🙂
E na questão prática, na realidade de empreender pode haver muito que talvez tenhamos que abrir mão, como certos confortos materiais, certos hábitos estabelecidos ao longo dos anos, certas garantias e seguranças já conquistadas. Por exemplo, um funcionário público com garantia vitalícia de emprego abriria mão disso para ter tempo para montar seu próprio negócio, com todos os riscos de não dar certo? Ou o funcionário estável em uma grande empresa, com a carreira em construção, abriria mão de sua trajetória profissional já traçada para realizar o sonho de viver de música?
Eu sonho em ter meu próprio negócio, mas não posso largar meu emprego para perseguir este objetivo, porque senão, não teria como manter o padrão de vida que já estou acostumado, teria que morar em uma casa menor, viajar menos, talvez vender o carro…
— Discurso de um “funcionário”.
Esta pergunta, “quando você irá se aposentar?”, juntamente com a explicação que a segue, visa sacudir um pouco a mente, fazer pensar “vem cá, é isto mesmo que você deseja? Porque se é, você precisa dar os passos necessários. E se não é, tem que parar de perder tempo pensando neste assunto! Ou c*** ou desocupa a moita!”
Porque sempre há os paliativos, aquilo que fazemos para aplacar a ânsia que nos consome. Você sonha em viver de música, mas como não acha que isso seja realista, então monta uma bandinha para tocar para os amigos nos fins de semana. Para cada paixão que poderia ser uma carreira, existe um paliativo que pode nos manter na vidinha chata que estamos acostumados em prol de “uma profissão estável e que pague as contas”. Então, se você não vai dar o passo necessário para conquistar o que realmente deseja para sua vida, assuma isso de vez, arranje um paliativo que lhe traga alguma alegria na rotina diária e viva o resto da sua vida neste equilíbrio entre trabalho chato e um pouquinho de prazer de vez em quando. Afinal, somente você é responsável por suas escolhas e suas consequências.
Quando você irá se aposentar: receita básica.
1. Defina quanto você precisa para se aposentar. Por exemplo, 2 milhões de dólares.
2. Verifique o quanto você já tem de patrimônio investido. Sua casa e seu carro não entram nesta conta, a não ser que sua “aposentadoria” envolva vendê-los. Vai que você deseje passar o resto de seus dias na beira da praia, acordando cedo para pescar, surfar, tomar um sol… Ou talvez você sonhe em viver em um sítio, com plantas e bichos ao seu redor… Ou ainda, sonhe em viver viajando, morando em hotéis ao redor do mundo. O sonho é seu, verifique seu patrimônio atual de acordo com seus objetivos.
3. Determine a quantia mensal que você dedica à sua pilha de investimentos.
4. Analise o seu histórico pessoal de resultados, seus investimentos nos últimos dois ou três anos, e determine realisticamente o quanto você consegue fazer seu patrimônio render com seus investimentos.
5. Coloque tudo em uma planilha, e, com o que você já tem, com o que você consegue investir mensalmente e com o quanto você consegue fazer esse patrimônio render, calcule o tempo que irá levar para você atingir o valor definido como “patrimônio de aposentadoria” no item 1 desta lista. Aproveite este momento para reavaliar este valor, baseado no seu custo de vida e no quanto você consegue fazer seu patrimônio crescer de forma automática, para que você possa manter o patrimônio com o poder de compra acima da inflação enquanto gasta parte dos rendimentos para viver.
Fazendo isso, temos um fantástico exercício para mostrar que somente investindo “o que sobra”, você provavelmente não vai se aposentar muito cedo. E levando em conta que sem estar no topo de uma montanha procurando uma mina de prata, ou cavando o chão tentando achar petróleo você provavelmente também não ganhará na loteria ou terá dinheiro caindo do céu direto em seu bolso, lanço então a seguinte pergunta:
Você quer realmente enriquecer e atingir a independência financeira? Está disposto a abrir mão do conforto atual em busca deste objetivo?
O problema que vejo com a maioria das pessoas que dizem desejar enriquecer, é que falam isso meio que da boca para fora, sem realmente parar para pensar o que é necessário fazer para realmente conseguir este objetivo. São pessoas que veem outras que já chegaram lá, que já conquistaram sua própria independência financeira, e tentam imitar o pouco que conseguem ver, sem se interessar pela história por trás das aparências, sem perguntar como foi que conseguiram chegar lá, quando isto custou em tempo e trabalho duro. São pessoas que descobrem que determinada pessoa formou sua fortuna investindo em ações, e começam a investir em ações elas mesmas, sem ao menos se perguntar que estratégia de investimento seu “guru” usou para chegar lá, o quanto estudou para atingir certa competência nos resultados, ou com que golpe de sorte eventualmente contou para obter resultados fora da média das outras pessoas. Sim, existem casos de gente que recebe a sorte grande, para quem dinheiro cai do céu, mas a grande maioria dos milionários que não estão nos jornais se fez por conta própria, ao custo de muito trabalho e dedicação, normalmente, buscando ardentemente conquistar não o dinheiro propriamente dito, mas alguma coisa que para si era mais importante que uma vida simplesmente confortável.
Neste grupo estão artistas que contra todas as probabilidades, decidiram viver de música, mesmo que nos primeiros dez ou quinze anos da “carreira” tivessem que trabalhar como garçons para ganhar um dinheiro extra para pagar as contas. São empreendedores que em busca da construção de seu negócio próprio eventualmente passaram alguns anos sem tirar férias, sem feriados e sem fins de semana, sem horários fixos de trabalho, este último, no sentido de que não tinham hora para sair, porque para chegar, sempre foram os primeiros. Depois que atingem o sucesso financeiro, depois que podem relaxar um pouco e viver do que construíram, a maioria das pessoas só enxerga isso, o resultado, sem sequer fazer idéia do que custou chegar lá.
Como conseguir enxergar a realidade?
O primeiro passo para tentar enxergar a realidade, é se dar conta da existência dela. Depois disso, o que temos que fazer é simplesmente buscar a maior quantidade de exemplos possíveis, absorvendo-os um a um, de maneira a construir as relações mentais necessárias para que então possamos nós mesmos, começar a desenhar nosso próprio caminho.
Uma forma de fazer isso é através das biografias de pessoas que já conquistaram o que buscamos para nós. Por exemplo, para quem deseja se tornar escritor, aconselho fortemente ler o livro “On Writing” do Stephen King, assim como “Zen in the Art of Writing”, do Ray Bradbury, e ainda “Bird by Bird” da Anne Lamott. Para quem deseja ser empreendedor, um bom livro é “Sete Homens e os Impérios que Construiram”. Ou os livros do Richard Branson. Ou os do Donald Trump. Biografias contam não apenas o sucesso final, mas o caminho percorrido. São uma excelente fonte de informação para sabermos o que nos espera pela frente e não ficarmos sentados sonhando em obter os louros sem antes entregar o suor necessário.
Deixo então a pergunta final, não de quando você irá se aposentar, mas sim do que você deseja para sua vida? E o que você está fazendo por você mesmo para chegar lá? Vou adorar saber sobre seus sonhos e seus passos para a realização dos mesmos nos comentários.