Uma defesa do Bitcoin como seguro para os super-ricos

Esses dias vi um post no Twitter em que pessoas montavam uma guilhotina em frente à casa do Jeff Bezos, logo após sairem as notícias de que ele tinha atingido a marca de 200 bilhões de dólares de patrimônio pessoal.

A Tesla, teve suas ações valorizadas em mais de 10 vezes em menos de 18 meses com a injeção maciça de dinheiro que o FED americano despejou no país. Isso apesar de ter 6 bilhões de dólares de prejuízo depois das contas e dividendos pagos a seus acionistas. Elon Musk atinge a cifra de 100 bilhões de dólares de patrimônio pessoal.

Enquanto isso, Bernie Sanders sugere que a solução para o problema da brutal inequalidade entre ricos e pobres não é corrigir os absurdos que estão sendo feitos pelo FED, mas sim, ir em direção ao socialismo…

Com as coisas andando como estão, uma hora parece que a maré pode virar para os super ricos. E claro, para os ricos de uma categoria mais comum. E se você que está lendo isso tem curso superior e um bom emprego que pague um salário decente, pode manter seus filhos em escola particular, possui imóvel próprio e um ou dois carros na família, e antes da pandemia que atingiu nosso planeta, podia se dar ao luxo de fazer uma ou mais viagens internacionais ao longo do ano, você pode achar que não, que é só classe média, mas a verdade é que você é sim, muito privilegiado em relação à grande maioria da população.

Então essa defesa do Bitcoin vale para os super-ricos, aqueles que qualquer pessoa sabe, inequivocamente que são, os multi-milionários, os bilionários, os grandes empresários e banqueiros, mas vale também para a grande proporção dos ricos que não se acham ricos, pois vivem em uma bolha de classe média que se acha pobre, sem nem mesmo fazer idéia do que é a realidade da grande população dos que são realmente pobres neste país.

Esse artigo é para você, médico, engenheiro, advogado, arquiteto, dentista, funcionário público, e qualquer um que possui um bom emprego que proporciona uma razoável qualidade de vida para sua família.

Eu não acredito em revoluções como forma de resolver os problemas, mas ao mesmo tempo não acho que estejamos completamente protegidos de alguma forma de revolução se em algum momento o tecido social seja extendido um pouco acima do razoável. Guerras civís e revoluções sangrentas já aconteceram vezes suficientes para nos mostrar que nunca podemos ter nada como definitivamente garantido.

E não falo aqui de direita ou esquerda, falo de radicalismos que não tem diferença de posicionamento, seja de que facção for. Ao mesmo tempo em que uma revolução vinda da esquerda pode exacerbar e tornar real um contra-ataque agressivo da direita, o contrário também pode acontecer com a mesma facilidade. Com os ânimos exaltados, é cada um por sí.

Por mais que as coisas encrespem em um determinado local, sempre há a tentativa de refúgio em algum lugar mais ameno. Temos isso acontecendo na Europa, temos aqui ao lado com nossos vizinhos da Venezuela atravessando a fronteira e se refugiando no Brasil. Tivemos há não tanto tempo atrás com o Holocausto.

O que vejo de diferente neste momento, e este é o ponto em que desejo chegar, é que, hoje, temos ferramentas que nos permitem tentar uma saída sem que tenhamos que abrir mão de tudo o que conseguimos juntar na vida. Na hora do aperto, pode ser tarde tentar resolver as coisas. Quando tudo explode, não dá mais tempo de vender imóveis, carros, equipamentos. O dinheiro no banco pode ter sido bloqueado. Atravessar a fronteira pode até ser possível, mas certamente sem os dólares na cueca ou no sutiã, que serão confiscados dos que tentam fugir…

Aí é que entra uma quantia razoável em Bitcoins. Nem tanto, que cause aperto atualmente, quando as coisas ainda estão em uma situação aparentemente normal, mas ao mesmo tempo, não tão pouco, que não sirva para nada em caso de uma situação calamitosa que exija uma saída de emergência do país. Penso em algo como o mínimo suficiente para tentar recomeçar a vida em um local mais seguro.

Os Bitcoins se tornaram um ativo considerado de valor por autoridades monetárias de praticamente todos os países. Essas autoridades sabem que não podem controlar o fluxo nem a propriedade desses Bitcoins, mas ao declarar a validade deles, permitem que exista um mercado para tal ativo.

O objetivo deste texto não é explicar como funcionam os Bitcoins, mas para compreender como eles podem ser um ativo de segurança em um momento crítico como uma revolução é necessário saber uma ou outra coisinha sobre eles.

  1. Onde estão, onde ficam os Bitcoins?
  2. Como compro e vendo Bitcoins?
  3. Como guardo meus Bitcoins de forma segura?
  4. Como atravesso a fronteira com meus Bitcoins?

Vamos construindo as respostas em ordem…

Onde estão, onde ficam armazenados os Bitcoins?

Os Bitcoins ficam armazenados de forma distribuída no que é chamado de Blockchain. Esse blockchain nada mais é do que o livro de registros de todas as transações feitas com todos os Bitcoins existentes. Quem mantém esses registros são todos os participantes da rede Bitcoin, ou seja, todos que possuem o software do Bitcoin em seus computadores. Atualmente, além das pessoas físicas que possuem tal software em seus computadores, há empresas gigantescas que mantém servidores rodando em tempo integral para manter a rede funcionando e as transações sendo registradas. O objetivo disto é que, quem faz parte dessa rede acaba, depois de um tempo, recebendo Bitcoins como recompensa pelo processamento que faz.

O que o Blockchain permite, na prática, é uma rede distribuída em que todos possuem uma cópia de todas as transações, de modo que se alguns deixam de existir, outros continuam, mantendo a integridade dos dados. Mesmo que um país inteiro seja “desligado”, os Bitcoins de quem mora naquele país continuam lá, registrados nos milhões de computadores espalhados pelo planeta que ainda estão registrando as transações da moeda.

Como compro e vendo Bitcoins?

Os Bitcoins podem ser comprados em corretoras que funcionam de maneira parecida com uma bolsa de valores. Essas corretoras são meros intermediários entre pessoas físicas que desejam transacionar Bitcoins. Os governos permitem a operação de tais empresas por um motivo bastante simples: exigem que elas tenham registro explicito de tudo o que é negociado, exige identificação extensiva dos usuários, com fotos e documentos válidos, além de transferências bancárias somente através de contas correntes registradas no nome de cada participante. É a única maneira dos governos tentarem ter algum controle sobre o que as pessoas fazem neste mercado. E cobrar impostos sobre isso 🙂

Os Bitcoins podem ser comprados sem registro, uma pessoa com a outra, com pagamento em espécie e transferência feita entre “carteiras de Bitcoin” individuais. Todas as transações são registradas, mas nenhuma “carteria de Bitcoin” possui um registro inequivoco de quem a possui. Você só pode chegar a uma pessoa específica seguindo uma longa trilha de por onde os Bitcoins passaram até chegar a determinado ponto. Então se eu compro um Bitcoin em uma corretora, por exemplo, e transfiro esses Bitcoins para uma determinada “carteira de Bitcoin”, tudo o que o governo sabe é que eu tinha esta quantia e transferi para alguém (ou para eu mesmo). Por outro lado, se eu compro individualmente Bitcoins de uma pessoa que eu saiba que os possui, somente esta pessoa sabe que foi para mim que ela vendeu tais Bitcoins. Sim, o governo pode saber que ela possuía Bitcoins e que os transferiu, mas só saberá que foi para mim se essa pessoa falar. E mesmo assim, só poderá provar se tal pessoa tiver gravado essa transação de alguma maneira (me filmando entregando o dinheiro, por exemplo?). No momento em que os Bitcoins foram transferidos para uma “carteira de Bitcoins” que eu tenha a chave de acesso, somente eu tenho como “abrir essa carteira”.

Como guardo meus Bitcoins de forma segura?

Uma carteira de Bitcoins nada mais é do que dois códigos alfa-numéricos longos. Um deles, público, representa o endereço Bitcoin, ou seja, identifica aquela carteira como única. O outro, privado, é a chave de segurança que permite realizar qualquer transação que envolva os Bitcoins registrados naquela carteira. Com os Bitcoins, somos o Banco que guarda nosso dinheiro, e os únicos a possuir a chave do cofre. Se a perdermos, ninguém mais tem acesso àqueles Bitcoins, nem mesmo nós. Por isso é importante guardar de forma muito segura a chave dos nossos Bitcoins. Qualquer um com acesso a ela pode fazer o que quiser com nossos Bitcoins, e se a perdermos não temos mais acesso a eles. Não é uma coisa simples, temos que proteger, mas não podemos perder. Muita gente perdeu Bitcoins ao longo dos anos. A maioria, quantidades enormes, que hoje valeriam verdaderias fortunas, ao ter “brincado” com a moeda em uma época em que não valiam quase nada e simplesmente terem perdido ou até apagado os HD’s em que guardaram as chaves de acesso originais. A primeira transação amplamente divulgada com os Bitcoins, foi uma pizza que foi encomendada mediante o pagamento de 10.000 Bitcoins, o equivalente, no dia em que escrevo essas linhas, a R$ 640.000.000.

Uma carteira de Bitcoin, aquele endereço único, público, pode não ser conhecida por ninguém. Essa carteira “possível”, só se torna uma carteira real, quando efetivamente transferimos Bitcoins para ela. A transferência de Bitcoins para uma carteira implica no registro desta transferência no livro de registros chamado de Blockchain. Desta forma, podemos ter várias carteiras de Bitcoins que só existem em nossa propriedade, sem efetivamente possuirem nenhum Bitcoin nelas. Para todos os efeitos, existir ou não essas carteiras é o mesmo. Somente quando transferimos Bitcoins de uma carteira previamente registrada no Blockchain é que nossa carteira passa efetivamente a existir na rede Bitcoin.

Como atravesso a fronteira com meus Bitcoins?

Sendo a carteira de Bitcoins um simples conjunto de dois códigos alfanuméricos longos, atravessar a fronteira com nossos Bitcoins passa a ser um exercício de como transportar ou transferir ou guardar digitalmente de forma segura esses códigos. Há diversas maneiras de fazermos isso.

Podemos compactar um arquivo com estes códigos, devidamente protegidos por senha, e nos enviar por email, utilizando um servidor de emails acessível em qualquer lugar do planeta, como Gmail ou Hotmail, por exemplo.

Outra maneira tradicional de manter nossos Bitcoins é fazer a impressão dos códigos em papel. É uma forma bastante comum para guardar Bitcoins de maneira a não correr o risco de perda no caso de problemas com equipamentos eletrônicos. Imprima os códigos de acesso à sua carteira, e guarde em um cofre, por exemplo. Esta não é, no entanto, uma maneira segura de atravessar uma fronteira, onde tal papel pode ser pego com certa facilidade.

A melhor e mais segura maneira de garantir que ninguém além de nós mesmos tenhamos acesso aos nossos Bitcoins, no entanto, é guardando os códigos na memória. Claro, é mais fácil falar do que fazer, quando estamos tratando de dois códigos de 32 caracteres completamente sem sentido aparente, gerados matematicamente. Por outro lado, a matemática é uma ferramenta maravilhosa, e na prática, conseguimos gerar um conjunto de chaves Bitcoin a partir de uma frase ou conjunto de palavras em determinada ordem. Podemos então pensar em algo único que faça sentido apenas para nós mesmos, mas que ao mesmo tempo não tenhamos como esquecer, e gerar nossa carteira Bitcoin a partir disso.

Um exemplo do que escrevi acima seria, por exemplo, usar parte de sua árvore genealógica como a semente geradora de sua carteira Bitcoin. Somente você sabe que essa é sua semente, somente você sabe em que pessoa da sua árvore genealógica começa sua sequencia de nomes, e em que ordem você percorre a árvore. E você não deve esquecer facilmente uma sequencia de nomes de avós, pais, tios e primos, nem as diferenças de idade entre eles para derivar alguma ordem dessa mistura de nomes. É apenas um exemplo para ilustrar que guardar a chave pessoal para sua carteira de Bitcoins não é algo tão difícil assim.

Concluindo

Este artigo foi uma pequena introdução à ideia de que precisamos pensar em nossa segurança financeira frente ao inesperado.

Vivemos em um período complexo.

A história já nos deu diversos exemplos de que não podemos tomar como certo nada do que temos hoje.

Podemos e devemos buscar alternativas que nos protejam até mesmo do que não sabemos que possa acontecer.

Acredito que possuir uma reserva de segurança do patrimônio em Bitcoins possa ser uma possível solução para tal proteção do indefinido.

Gostaria de ouvir sua opinião. Se gostou deste texto, se essa ideia ressoa com suas observações, ou se precisar de orientação profissional mais prática ou pessoal para implementar uma estratégia dessas, entre em contato.

Autor: Fabricio S. Peruzzo

Pai, marido, polímata, empreendedor, curioso. Tranquilidade financeira é qualidade de vida.

5 comentários em “Uma defesa do Bitcoin como seguro para os super-ricos”

  1. Concordo em gênero, número e grau. Porém, há métodos melhores que papel, email e memória. Você pode comprar um dispositivo que mantém isso tudo organizado e protegido por criptografia. Trezor e Ledger são os dois mais conhecidos e confiáveis.

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    1. Sim, carteira de Bitcoins em hardware é uma ótima alternativa para guardar os Bitcoins enquanto tudo está relativamente tranquilo ainda, mas o que queria chegar como conclusão final é que, se chegar a hora de realmente precisar atravessar uma fronteira apenas com a roupa do corpo, há alternativas extremas que permitem isso apenas guardando os Bitcoins na memória.

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    1. Oi Felipe. Na verdade não acho que algo tão extremo deva acontecer. A reflexão vem justamente do fato que nunca achamos conscientemente que esse tipo de coisa vá acontecer conosco, ou no nosso tempo. E quando vemos, acontece. A Venezuela era um paraíso em ascensão antes de se tornar o inferno que é atualmente. O holocausto realmente aconteceu, e faz tão pouco tempo, que ainda há pessoas vivas que sentiram na pele os seus horrores. Então, não acho que deve acontecer nada, mas ao mesmo tempo, não descarto totalmente esse risco. E havendo o risco, um seguro de tamanho adequado me parece uma boa idéia.

      Há ainda a diferença, neste caso, de um seguro tradicional. Enquanto no seguro padrão, como o seguro do carro, perdemos o valor colocado no mesmo se não o usarmos, neste, mantemos indefinidamente o ativo em questão. E dadas as minhas perspectivas positivas frente à relevância do Bitcoin no dia a dia mundial, acredito que esta solução pode ser uma ferramenta de proteção dupla. Nos protege de casos extremos, e nos protege de abusos econômicos dos governos.

      Dados todos esses fatos que tentei expor, e provavelmente outros dados que inconscientemente me fazem pensar desta forma, acredito que uma reserva em Bitcoins possa ser uma boa forma de sentir certa segurança extra. De novo, sem que seja um valor que prejudique a vida atual. Um seguro que gera insegurança no momento presente, não é um seguro 🙂

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