A incrível Madalena e os 5S

Por Armando Pastore

– Gostaria de convidar os participantes para contar suas experiências pessoais sobre o tema.

Essas foram as palavras que o instrutor, Carlos, do “Curso de Qualidade Total e os 5S” pronunciou. Essa foi a deixa para que Madalena também se manifestasse.

– Eu tenho, sim !!

– Pois não Madalena…

– Hoje, Carlos, pode me chamar apenas de Mada.

Os demais participantes que conheciam MadaLena superficialmente suspiraram. Quem a conhecia mais de perto ficou suspeitosamente olhando para o teto. Os mais íntimos – soube depois – se arrepiaram.: Aí tem coisa!!!!.

Conheci MadaLena durante aquele curso. Trabalhávamos na mesma empresa pública, ela, em Brasília, eu, em São Paulo. Estávamos sendo preparados para multiplicar a ferramenta de qualidade: 5S.

MadaLena tinha pouco mais de 46 anos, 22 de serviço público, mais da metade exercendo cargos de chefia. Não havia na empresa quem não a conhecesse. Mineira de Belo Horizonte, MadaLena havia chegado adolescente a Brasília. Casou-se com outro mineiro, com quem teve cinco filhos. Separou-se quando – palavras dela – descobriu que o marido estava fazendo outros cinco filhos com a secretária. Sua vida pessoal era quase previsível. Quando, ao receber o bom dia dos colegas respondia: Hoje podem me chamar de Mada, todos já podiam ficar esperando um dia cheio de trabalho, cobranças, mau humor e muita, mas muita crítica. Quando dizia que poderiam chamá-la de Lena, todos entravam em êxtase. Nos dias de Lena ela era simplesmente a melhor chefe do mundo. Uma pessoa aberta, bem humorada, prática, companheira etc.

Mada, levantou-se, foi para o flip-chart e pegou vários pincéis atômicos.

– Primeiro quero que vocês todos pensem por que estão trabalhando no serviço público…

– Cada um terá suas razões pessoais, mas acho que posso explicar utilizando o 5S positivo e o negativo…

Carlos interveio:

– Mada, permita-me dizer que não existe 5S negativo ou positivo.

– Já ouvi você Carlos, por mais de 12 horas. Agora, por favor não interrompa, disse Mada com rispidez.

Dirigindo-se novamente à platéia, Mada continuou,

– A maioria dos funcionários públicos – e não servidores, odeio essa palavra, começaram a trabalhar por causa do primeiro S : o do Salário. Na minha opinião, é inegável que os salários das organizações públicas são superiores, na média, aos oferecidos pela iniciativa privada.

– Em segundo lugar, quase que empatando com Salário, vem o segundo S, o da Segurança. Dificilmente – aliás, somente em casos extremos – é que podemos ser despedidos. Uma vez dentro do serviço público, quer trabalhemos muito bem, quer apenas realizemos o mínimo necessário, jamais teremos problemas com nossa segurança profissional e financeira.

– O terceiro S é o da Satisfação. Depois desses 2S anteriores passamos a procurar no serviço público aquilo que pode nos deixar satisfeitos. É a partir deste ponto que os 5S podem tornar-se positivos ou negativos.

Enquanto falava, Madalena ia colocando no flip, com letras azuis e vermelhas cada um dos S que havia mencionado, ressaltando as primeiras letras e procurando trazer toda a atenção para ela. Diga-se de passagem, MadaLena era uma excelente apresentadora.

– Se a pessoa está satisfeita com o que faz, poderá sempre fazer melhor, estará sempre se desenvolvendo, estará sempre em sintonia com os objetivos da organização e conectada com seus anseios pessoais. Entretanto, se ela não obtém Satisfação no trabalho, vai para o próximo S.

– S de Sacrifício. É isso mesmo! Sacrifício de estar todos dos dias, fazendo o mínimo possível, sacrifício de ver pessoas, de atendê-las, de realizar qualquer tipo de trabalho. Trabalho que é um verdadeiro castigo.

– Não obtendo resultados em nada do que possa transformar, o funcionário público vai para o último S negativo, o do Suicídio. Um profissional que se torna um zumbi, um morto vivo que faz, sem saber por que faz. Um zumbi que está sempre reclamando da vida, do trabalho, das pessoas, um verdadeiro parasita das nossas organizações. Bom exemplo de Suicida é aquele a quem você pergunta como ele vai e ele responde que só está esperando a aposentadoria. Você pergunta quanto tempo falta, e ele responde que faltam 7 anos. Esse funcionário já morreu! só esqueceram de enterrá-lo.

Carlos, ainda que tentou interrompe-la mais uma vez, pois estava pressentindo que o curso iria terminar, o que evidentemente, de nada adiantou.

– Acho que você pediu que eu contasse minha experiência pessoal sobre 5S. Se não vale ter 5S na vida, de que vale para qualquer organização que se pretenda moderna? Perguntou Mada.

– É que… Carlos tentou

– Não tem que e nem mais quê… Nossa participação neste evento tem que ser verdadeira e não um jogo de faz de conta. Ou você acredita no que está fazendo, ou vira um zumbi como a maioria dos funcionários públicos. A empresa finge que paga e o sujeito finge que trabalha. Não, isso não é desenvolvimento!

– Não estou aqui para fingir que irei por em pratica os Sensos que você apresentou. Ou todos nós realizamos juntos, ou estamos perdendo o seu tempo, o nosso tempo e o tempo da organização!!

Mada, então pegou um pincel atômico e desenhou no flip o seguinte esquema :

OS 5S DA VIDA

S – SALÁRIO

S – SEGURANÇA

S – SATISFAÇÃO

NEGATIVO POSITIVO

S – SACRIFÍCIO

S – SUICIDIO S – SUCESSO

– Agora, quem consegue Satisfação no trabalho, tem e terá muitas chances de alcançar o último S positivo , o do Sucesso…

– Sucesso, vem do latim sucessus-üs, que significa aquilo que sucede, bom êxito, resultado feliz, sucessão, que quer dizer uma coisa após a outra. Isso é que é sucesso. As pessoas de sucesso realizam pequenas e grandes tarefas. Terminam as tarefas que estão executando e começam as seguintes com o sentimento de estarem realizando algo conectado com seus objetivos pessoais; desenvolvem-se; participam de um processo de desenvolvimento em qualquer tipo de organização.

Contrafeito, Carlos tentou ainda mais uma vez…

– Mas, Mada, permita-me interrompê-la mais uma vez, mas nos 5S positivos que você escreveu só tem quatro. Não lhe parece que algo está em desacordo?

Meio irônica do alto de seus 22 anos de experiência, Mada contrapôs.

– Meu caro instrutor, quem utiliza o 5S positivo, sabe que na atual conjuntura não é preciso mais do que quatro. Os funcionários que utilizam os 5S positivos estão sempre com o foco nos objetivos, ou se preferir no ASSUNTO – só na nesta palavra temos mais dois esses. Pense comigo; tudo que você está dizendo desde segunda feira é o mínimo que podemos fazer no nosso dia a dia. Quem pratica o 5S positivo, economiza tempo e realiza tudo o que você falou em apenas quatro etapas.

– Não existe nada mais sério do que Salário, Segurança e Satisfação, desde que isso venha acompanhado do Sucesso pessoal. Sem esses pré-requisitos os sensos, de arrumação (seiri), de ordenação (seiton), de limpeza (seisoh) de asseio (seiketsu) e de auto-disciplina (shitsuke), de nada adiantam.

Retrucou MadaLena, tentando pôr um fim na sua apresentação.

O silêncio que se fez era constrangedor. Mal refeita do susto, a platéia pôde ainda ouvir Mada dizer:

– Temos que raciocinar sobre o que temos de realmente atacar. A ferramenta que nos foi apresentada sem dúvida é válida. Mas, sempre existirá um mas… estamos atacando as causas ou as conseqüências ?

– Só quem trabalha com os 5S positivo, pode explicar as razões de encontrarmos nos corredores das nossas instituições públicas, funcionários que vivem bem, transpiram felicidade, alcançam resultados, vivem em sintonia com as demais pessoas e percebem-se úteis à sociedade, que paga nossos SALÁRIOS.

– Para essas pessoas especiais, 5S é uma ferramenta um pouco mais sofisticada, muito parecida com aquilo que fazem no seu cotidiano.

– Antes de terminar, gostaria de pedir que todos refletissem sobre a utilização que cada um faz dos sensos que o Carlos apresentou.

Todos aplaudiram MadaLena. No meu relógio já eram quatro da tarde e estávamos encerrando o evento. Naquele momento, o evento, para desespero de um Carlos atônito, estava terminando.

Sem saber, MadaLena, tinha aplicado o primeiro nocaute no processo de Qualidade Total. Alguns anos mais tarde ninguém mais falaria em 5S, ainda menos em qualidade.

Essa história persegue meus pensamentos. O que MadaLena falou naquela tarde foi uma lição importante. Sempre que estou desenvolvendo algo novo lembro-me dela.

Uma indagação até hoje me persegue: afinal de contas, quem apresentou os 5S da Vida, foi Mada ou foi Lena?

Autor: Fabricio S. Peruzzo

Pai, marido, polímata, empreendedor serial, curioso.