Como sempre ter dinheiro no bolso

Por Eng. Daniel Gustavo C. Coulomb

Faz alguns anos o gerente de uma corretora me disse: “Daniel, os corretores nunca têm um centavo no bolso; ganhem pouco ou muito, sempre estão duros; não tem jeito; gastam até o que não tem!”. Eu fiquei calado, enquanto me perguntava em silencio: “Somente os corretores?”.

Hoje, mais do que nunca, comprovamos que não somente os corretores, mas também pessoas das mais variadas faixas de poder aquisitivo enfrentam dificuldades por gastarem mais do que ganham. Vamos analisar mais detalhadamente este problema e, neste breve ensaio, tentarei mostrar uma solução para este terrível flagelo que afeta muitas pessoas, famílias e até mesmo instituições e empresas.

As tentações que propiciam o consumo nunca foram tão agressivas e sofisticadas como as divulgadas atualmente pelo marketing moderno, mediante anúncios na televisão aberta, a cabo (que nos prende mais tempo em frente à telinha) e ofertas nos jornais, catálogos e revistas. O telemarketing e as malas diretas especializadas, direcionadas para segmentos diferenciados, facilitam a venda, além dos shoppings, que com elaboradas tentações satisfazem as mais variadas necessidades, conseguindo – como nunca antes – reunir em um único lugar as mais diferentes opções de compra. Quando já parecia que toda a sofisticação em matéria de vendas havia sido inventada, surge a Internet com suas incontáveis tentações e com um potencial de força infinitamente superior. A pergunta, então, é: “Qual é o limite?”.

Diariamente somos sufocados com diferentes ofertas, produtos e serviços. Desde carros sofisticados, roupas, artigos para o lar, assinaturas de revistas, livros, CD’s, eletro-eletrônicos importados, produtos para o lazer, produtos esportivos e para ginástica, computadores – e seus periféricos e produtos afins –, viagens de turismo e até mesmo cursos e seminários dos mais variados.

Enfim, a enxurrada de tentações que nos induz a gastar não têm fim.

As formas de pagamento são ardilosas e perigosas tais como o terrível cartão de crédito, o famoso cheque especial e, pior ainda, o sorrateiro cheque pré-datado, agente campeão das quebradeiras.

Outras formas de pagamento são dignas de um filme de horror ou parecem elaboradas por um Maquiavel: pague em 36 meses ou, leve hoje e comece a pagar daqui a 60 dias! Crédito na hora e sem fiador! Leasing, alugue ou compre, escolha a opção de sua preferência… e assim vai. E, agora, por último e como grande novidade, os programas de fidelidade, que falam: “permaneça juntinho de mim; compre sempre de mim que eu lhe darei como recompensa os mais variados prêmios”, inclusive – assim penso eu – uma cova na “terra dos falidos”.

Dos juros aplicados pouco falarei; nem o “Mister M” descobriu a forma para ajudar aos que necessitam sair desse atoleiro.

Diante de tanta invasão e persistente “tiroteio” de ofertas e oportunidades, as pessoas sentem-se imbecis ou desatualizados se não se rendam ante tantas tentações e tantos rótulos como: “inteligentes”, “gente que pensa”, “gente de futuro”, “moderno como ninguém”, “gente de ação” e não sei quantos outros “slogans” ou dizeres dos quais se utilizam os “marketeiros” para bajular e fisgar seus potenciais e “bonzinhos” compradores.

Tudo isso cria sérios conflitos nas pessoas, consigo mesmas e junto a suas famílias, suas amizades e seus empregos; produz insatisfações pessoais difíceis de solucionar e um estresse crescente, com situações, às vezes, insuportáveis.

“CHEGA, CHEGA, SOCOOOOORRO!!!, “to quebrado! Por Deus, qual é a soluçãoooooooooooo?”

Existe um escudo, uma defesa, uma ferramenta antiga como o mundo, implacável e extremamente eficiente, mas muito pouco usada, por ser muito mal compreendida. Seu nome: POUPANÇA.

Uma análise superficial dessa poderosa ferramenta permite somente ver a parte superior do iceberg e não a parte submersa. Esta imagem parece ser a “principal” vantagem que oferece a poupança e na qual, erradamente, a maioria das pessoas se concentra. Esta parte visível é o dinheiro acumulado no decorrer do tempo.

Mas o dinheiro acumulado é uma conseqüência e não uma causa. As causas, fatores motivadores de mudança e melhoria comportamental das pessoas que poupam, encontram-se na parte submersa do iceberg e são as verdadeiras qualidades a serem analisadas e compreendidas.

Vejamos quais são estas qualidades:

Caráter

Prestígio é o que as pessoas pensam que somos; caráter é o que realmente somos. A poupança, sem dúvida, colabora fortemente na formação de um sólido caráter nos poupadores contínuos e permanentes.

Autoconfiança

O fato de concretizar um objetivo, adquirir um bom hábito e constatar o aumento paulatino das reservas (como conseqüência também da diminuição dos gastos conseguida), produz um grande efeito positivo na autoconfiança do poupador e se reflete também de forma positiva em outros comportamentos de sua vida.

Objetivos e Metas

Quando o ato de poupar se faz em quantidades e datas certas, sendo devidamente registrado por escrito, transforma-se em um poderoso objetivo que provocará mudanças profundas em quem o realize. A divisão desse objetivo em metas parciais aumenta as possibilidades de êxito, já que ordena e racionaliza o trabalho do poupador. A confiança adquirida na conquista desse objetivo permite estabelecer uma importante referência a ser utilizada na procura de outros objetivos.

Hábito Salutar

Segundo Aristóteles, “as pessoas são o somatório de bons e maus hábitos”. Acrescentemos essa nova forma de ser ao nosso comportamento e lucremos com ele, não somente em dinheiro, mas também – principalmente – adotando uma maneira construtiva de agir. Incorporar o salutar hábito da poupança pode ser aproveitado para eliminar outro mau hábito, pois segundo Napoleon Hill, “Um mau hábito pode ser eliminado com outro bom hábito que o substitua”. É necessário criar o novo hábito, a nova trilha que o ajudará a mudar seu presente e futuro para muito melhor.

Esteja antenado ou em sintonia

Quando uma mulher fica grávida, começa a perceber a seu redor muitas outras mulheres grávidas; observa com maior atenção assuntos relacionados com os bebês, tais como: carrinhos, mamadeiras, chupetas, roupa infantil etc. A maioria dos acontecimentos associa à sua gravidez dificilmente escapam à sua atenção. O que acontece é que ela está antenada, sintonizada nesse fundamental momento de sua vida. O grande profissional de vendas também vive sintonizado em situações relacionadas a seu trabalho e raramente as oportunidades se lhe escapam. Quando você começa a poupar de forma metódica e sistemática, suas antenas começam a sintonizar melhor e a captar com mais facilidade todos os assuntos relacionados ao dinheiro, situações que antigamente fugiam à sua percepção.

Imã

Aqui vale o velho ditado que diz: “O dinheiro atrai o dinheiro”. Quem não é poupador, geralmente é um perdulário ou gastador que repele o dinheiro; este queima nas suas mãos, durante muito pouco tempo nelas permanece e muito menos ainda na sua mente, já que imediatamente pensa em que gastar. Quem poupa atrai o dinheiro como um imã porque essa pessoa pensa sempre em guardar e construir, começa a procurar meios de aumentar os rendimentos e aproveitar melhor deles. O dinheiro se sente “apreciado” e começa a aparecer porque gosta dos lugares onde é bem tratado. Cuidado! Longe estou de pretender que você se transforme num avaro, sovina ou “pão duro” – o outro extremo do gastador ou perdulário –, pois ambos são desvios obviamente execráveis e pouco recomendados.

Não perdulário

Quem nada tem a perder pouco se interessa em proteger o que não tem. Quando a pessoa aprende a guardar dinheiro, começa a valorizar o que tem e a pensar em como preservar e aumentar seu patrimônio; para isso, aplica mecanismos que impedem o gasto excessivo e a saída fácil do que foi conquistado com muito trabalho. O cheque especial começa a ficar “no azul”, o cartão de crédito é menos utilizado, o pagamento de prestações são reduzidos e, sobretudo, os gastos impulsivos e muitas vezes desnecessários perdem força pela utilização mais racional e planejada dos recursos.

Insatisfação positiva
O fato de ter dinheiro, somado à natural necessidade permanente de crescimento do ser humano, cria uma insatisfação positiva, motivada por se querer possuir mais ainda, o que provoca uma reação saudável no sentido de se poupar mais, a fim de conquistar aumento patrimonial pessoal.

Segurança

Alcançar tranqüilidade através de um respaldo financeiro cria na pessoa um sentimento de segurança e autoconfiança, fundamentais para que se possa enfrentar eventuais necessidades; isso se manifesta num comportamento mais tranqüilo e com redução da ansiedade.

Emprego fácil

Os empregadores valorizam os candidatos ao reconhecerem neles as qualidades acima mencionadas, já que consideram que uma pessoa com esse perfil, trata-se geralmente, de um bom profissional, disciplinado e pouco chegado a farras e comportamentos indesejáveis. Os candidatos também mostram, nas entrevistas de seleção, atitude mais tranqüila, isenta de ansiedade, o que lhes favorece amplamente. O poupador, ao desenvolver as qualidades acima, se torna na prática uma pessoa com muito maior potencial para ser um bom profissional.

Auto-estima

Por tudo isso, o poupador aumenta sua auto-estima e, em conseqüência, melhora – de um modo geral – como pessoa e profissional.

Fazendo escola

“O que você faz grita tão forte aos meus ouvidos, que não posso escutar o que falas.” – Ralph Waldo Emerson. Com esse exemplo, um chefe de família ou uma dona de casa exercem um exemplo salutar que habitualmente é seguido pelo grupo familiar (inclusive por amigos e colegas) e isso provoca um efeito “em cascata” de ótimos resultados.

Muito bem: tudo o que você leu até aqui pode soar muito bonito para você; porém, imediatamente surge a pergunta: “Como e quando começar?”.

Sem dúvida, você deve começar já, principalmente se as suas dívidas o perseguem e você sofre o incômodo do cheque especial “no vermelho”, do cartão de crédito com limite todo utilizado, as dívidas com amigos e parentes “pipocando”, as contas importantes pendentes de pagamento e outras coisas mais. Você deve parar de “brigar consigo mesmo”, amigos, colegas e credores, por causa de um problema que, na maioria das vezes, foi criado por você mesmo.

Você deve dar um “basta” a esses problemas e, para tal, proponho, começarmos juntos a construir a sua solução.

Eis algumas perguntas que você pode estar querendo fazer e suas respostas:

– Como vou começar a poupar agora, se estou “duro” e “devendo a meio mundo”?”

Resposta: – Por isso mesmo, você deve começar já a poupar, para sair desse atoleiro, para evitar todas as causas que fizeram com que você se encontre nessa situação. Não se preocupe com o dinheiro por enquanto; primeiro, temos que construir os alicerces de seu castelo (as qualidades mencionadas acima), para que – pouco a pouco – você possa ir cancelando as suas dívidas e, depois, passo a passo, ir construindo as paredes desse castelo (seus sonhos e objetivos).

– Não entendo, eu vou poupar ganhando 1,5% da poupança enquanto estou perdendo de 10 a 13% por mês no banco pelo cheque especial ou pelo cartão de crédito? Eu não estou maluco!

Resposta: – Não, você não está maluco, e acho que eu também não; esse diferencial de 8,5 a 11,5% é o preço que você vai pagar para aprender a melhorar seu caráter, sua autoconfiança, criar um bom habito etc, etc….!!!!! Digo-lhe mais ainda: em pouco tempo, muito menos do que você imagina, esses percentuais de diferença irão desaparecendo, porque suas dívidas sumirão como por encanto e você conquistará todas as qualidades das quais já falamos.

Agora, vamos tratar de símbolos. Símbolo é todo objeto ou imagem que representa um conjunto de coisas, qualidades, princípios ou valores. A bandeira brasileira, se considerada superficialmente, é um simples objeto, um pano verde com alguns desenhos e dizeres, mas na realidade ela é muito mais: é um símbolo muito forte que representa um país, que representa tradição, patriotismo, território, folclore, música, união, história e muitas outras coisas. Transmite um sentimento forte de união e valorizamos muito esse símbolo porque ele é o Brasil.

Vamos escolher um símbolo simples que represente este ato de poupar que, pelo simples fato de ler estas linhas, você já está começando e que seja a imagem do somatório de todas as qualidades – já mencionadas – conquistadas ao poupar. Sugiro que você escolha uma moeda de 1 (um) centavo e marque-a com um arranhão ou com um furo, para que ela seja – e somente ela e não qualquer outra moeda – o símbolo dessa poupança que você está iniciando. Coloque-a em um lugar ao alcance de sua vista; exemplo: colada no telefone, relógio ou agenda de mesa, porta papeis etc. (a minha está colada no monitor de meu computador) e sempre que olhar para ela, lembre-se das qualidades que você está conquistando e a liberdade e a riqueza que está construindo. Pense sempre no presente e não no futuro; você não pode confundir sua mente procurando atingir um objetivo que está sempre na frente e que nunca será alcançado.

Corra agora e abra uma caderneta de poupança; cada vez que tenha qualquer ingresso de recursos financeiros, produto de comissões ou qualquer outro tipo de ganhos, imediatamente poupe 10% do valor recebido. O segredo é este: assim que você receber o dinheiro, aplique-o imediatamente. Para facilitar mais o ato de poupar esses 10%, quando você ganhar – por exemplo – uma comissão de R$ 200,00, pense que, na realidade, está recebendo R$ 180,00, pois os R$ 20,00 complementares por muito tempo não verão a luz do sol. Proponha-se a utilizar esse dinheiro em longo prazo, na compra de um imóvel, terreno ou mudança futura de sua casa ou apartamento. O excedente restante, que seguramente vai começar a aparecer com sua dedicação e disciplina, será utilizado para pagar as dívidas.

Quando suas dívidas estiverem “zeradas”, aí sim sugiro aumentar sua poupança em 5 ou 10% para realizar futuras compras de curto prazo como carro, viagens, decorações, eletro-eletrônicos etc. etc.

E tudo isso funciona? O autor destas linhas é a cobaia que experimentou exatamente ponto por ponto o aqui apresentado. Eu era um perdulário e gastador compulsivo e cheio das dívidas mais variadas que você possa imaginar, quanto a valores, tipo e tempo das mesmas (algumas com mais de 10 anos). Apliquei exatamente a receita acima e hoje em dia estou livre de todas as dívidas, repito, de todas as dívidas, com uma razoável poupança e com muitos projetos pela frente. Ahh! e o mais transcendente, a minha família segue também a mesma trilha.

Agora, podem acontecer três coisas: em primeiro lugar que alguns não acreditem em nada do que tiveram oportunidade de ler – e eu os respeito pois unanimidade, nem Jesus pôde conquistar; em segundo lugar que outros decidam experimentar só para ver o que acontece, sem muito compromisso e se os resultados não aparecerem dirão que “o sistema não funciona”. Finalmente, estarão aqueles que decidirão por em pratica estes conceitos com muita determinação, convicção e dedicação. A estes últimos lhes garanto um futuro pleno de sorrisos e peço-lhes que quando comprem um carro novo me convidem para passear pelo menos por um quarteirão. Sentirei-me muito feliz por vocês e também por eu ter contribuído na obtenção desses resultados.

Nada mais por ora; espero algum dia ver o castelo de vocês.

Até outra oportunidade, se Deus quiser.

—–
Daniel Gustavo C. Coulomb
O Eng. Daniel Gustavo C. Coulomb é consultor da FIX Consultoria.

Autor: Fabricio S. Peruzzo

Pai, marido, polímata, empreendedor serial, curioso.

Uma consideração sobre “Como sempre ter dinheiro no bolso”

Os comentários estão encerrados.