Retrospectiva dos últimos 15 meses

Este é um daqueles textos que costumo escrever para mim mesmo, sem intenção de publicar. É algo como “meu querido diário”, uma conversa minha comigo mesmo, para reflexão e para quem sabe, lembrar de como eram as coisas alguns ou muitos anos atrás. Só que o ano passado foi um ano de muitas realizações e de muitos desafios pessoais, com coisas boas e ruins acontecendo quase todas as semanas. Anos assim são bons, pois saímos da rotina, e saindo da rotina, aprendemos. Enviei este texto em diversas versões, algumas mais acabadas, outras menos, para alguns amigos mais próximos. Todos falaram o mesmo: publica, que mais pessoas podem aproveitar ou aprender alguma coisa com estas experiências. Então aqui está, um breve relato do que aconteceu na minha vida nos últimos 15 meses, com comentários sobre os fatos e algumas coisas que já destilei de aprendizado. Espero que a leitura seja útil para você, como foi para mim o fato de ter escrito isso.

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O ano de 2011 foi bastante intenso para mim. Há anos sonhava em morar no Silicon Valley, na California.. Sonhava viver onde toda a história da tecnologia acontece. Finalmente, depois de anos de espera e prorrogações sem fim, estava decidido a viver esta aventura. Iria morar lá durante seis meses, sem grandes planos prévios. Era viajar e viver um dia após o outro, com todas as descobertas e desafios que isso me traria. Iria com minha esposa, que não via a aventura com a mesma expectativa que eu, mas que sabia o quanto isso era importante para mim e meu desenvolvimento pessoal. No final, aconteceu tudo diferente e ela se divertiu bastante, mas chego nestes detalhes em breve.

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Esse negócio de morar no Silicon Valley era como a história do Jeep que comprei (dois, um azul e um prata). Sempre havia sonhado em ter um Jeep antigo, até que um dia comprei. Foram duas felicidades, a de comprar e a de vender poucos meses depois. Não nasci para isso, mas descobri da minha maneira, na prática. Com a Harley-Davidson foi diferente, experimentei e gostei muito, tive duas Harleys. Vendi porque cada coisa tem seu momento para acontecer, e no caso das motos, o momento foi e não é mais agora. Certamente voltarei a ter uma Harley no futuro não muito distante.

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Bom, falei que 2011 foi um ano intenso. A viagem para os Estados Unidos estava marcada para março. No meio de fevereiro, no entanto, um convite completamente inesperado chega no meu email. Um amigo, investidor da minha empresa de consórcios imobiliários que morava no Japão, pergunta se não gostaria de ir visitá-lo na Terra do Sol Nascente para explicar o investimento em consórcios e desenhar um plano de aposentadoria para dekasseguis que moram e trabalham lá com o objetivo de voltar ao Brasil com condições de viver uma vida digna com o patrimônio que conseguem construir com o que ganham lá. Naturalmente disse que adoraria conhecer o Japão e conhecer todos pessoalmente. Falei da minha viagem para os Estados Unidos e disse que estando lá, seria até mesmo mais fácil, pois estaria mais próximo do Japão. Perguntei quando ele gostaria que eu fosse e a resposta me pegou de surpresa: se possível, antes de ir aos Estados Unidos.

Mandei um email para outro amigo, agente de viagens, perguntando sobre os custos e possibilidades de passagem para o Japão nas datas estimadas. Ele não apenas me mandou os valores, mas fez um pouco mais, fez as reservas. Se realmente quisesse viajar, bastava avisar que ele confirmaria as passagens. Mais alguns emails e telefonemas e estava tudo certo, eu e minha esposa embarcaríamos para o Japão em menos de uma semana, para ficar por lá durante vinte dias. Prorrogamos as passagens para os Estados Unidos para duas semanas depois da nossa volta e uns dias depois iniciamos nossa jornada para o outro lado do planeta.

Viagem maravilhosa, pessoas incríveis, histórias de vida que me tocaram e me fizeram conhecer uma nova realidade. Agradeço muito por poder ter tido as experiências que tive enquanto estive por lá. Escrevi sobre a experiência em textos anteriores a este.

Saímos do Japão poucas horas antes do tsunami e terremotos que atingiram a ilha. Estávamos voando quando a tragédia estava acontecendo. Muita sorte. Se a tragédia acontecesse poucas horas antes, não teríamos conseguido partir.

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Ao voltar do Japão e preparar a ida para os Estados Unidos, problemas. Minha sogra teve algo em um dos olhos que ficou “cego”. Como isso era acompanhado de enxaquecas, a preocupação com algo mais sério no cérebro foi algo que cogitamos. Exames e mais exames não identificavam o problema e com isto acontecendo, naturalmente prorrogamos a viagem uma segunda vez. E ainda uma terceira vez, até descobrirmos o que havia com ela.

Algumas semanas depois, com direito a internação hospitalar para observação e toda a preocupação que isso implica, finalmente descobriram o que havia de errado e como tratar o problema. Com a situação sob controle, voltamos ao plano da viagem. Partimos dia 27 de maio.

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Morávamos em um apartamento enorme em um bairro maravilhoso da cidade. Compramos bem, pagamos barato. Na época era um passo muito maior que a perna e a justificativa maior para a compra foi para ajudar a tapar um pouco o buraco emocional enorme causado pela perda do meu cunhado para um câncer, com apenas 29 anos de idade. O impacto disto para minha esposa e minha sogra não pode ser descrito com palavras. Alguma coisa boa precisava acontecer naquele ano, naquele mês, e este passo enorme na compra de um apartamento maravilhoso, mas que não sabíamos como pagar foi o que fiz, sem pensar muito nas consequências futuras. Isso aconteceu em 2008.

Passo dado, felizmente as coisas deram certo, os negócios prosperaram e tudo acabou bem. Ou quase. O apartamento era bastante antigo e nunca havia sido reformado. Sistematicamente cada pedaço do apartamento começou a entrar em colapso, culminando com os encanamentos que nos levaram, nas semanas que antecediam a mudança para o Silicon Valley, a fechar os registros e ficar sem água quente nos banheiros principais. Tivemos que reativar o banheiro da área de serviço, que havia se transformado em uma pequena despensa, comprando um chuveiro elétrico e adaptando uma espécie de cortina no local onde ficava a porta, que havia sido retirada anos antes, logo que nos mudamos para lá.

Havíamos colocado o apartamento a venda muito tempo antes, quando ainda pensávamos que poderia não ser possível bancar o custo do mesmo. Além disso, como compramos bem, havia a possibilidade de ter um bom lucro com ele, nos permitindo dar outros passos mais adiante. Dois anos se passaram e muitas ofertas vieram, mas gostávamos de lá, e com as coisas dando certo nos negócios e o pagamento do apartamento não sendo mais problema, uma venda só seria feita se tivéssemos um bom lucro no negócio. Com os problemas que começaram a acontecer, já estávamos propensos a aceitar ofertas menores do que estávamos pedindo, para não precisar passar pelas reformas que teriam que ser feitas se fôssemos continuar lá. Ofertas vieram e vendas deixavam de ser concluídas por detalhes irrelevantes. Era como se não fosse para vender o apartamento naquele momento e naquelas condições.

Fechamos tudo e fomos para os Estados Unidos. Como uma das negociações havia sido praticamente concluída, com a compradora desistindo na última hora, já havíamos até mesmo nos desfeito de alguns móveis maiores e encaixotado todos nossos objetos pessoais. Nossos pais ficaram com as chaves para qualquer emergência enquanto estivéssemos fora e algumas imobiliárias continuariam marcando visitas na nossa ausência.

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Os três meses nos Estados Unidos foram fantásticos. Completamente diferentes do que havíamos “não planejado”. A idéia original era alugar um apartamento pequeno e ter uma base no Silicon Valley para viver o dia a dia da região. No final das contas acabamos morando em hotéis o tempo todo, tendo mais flexibilidade, viajando mais e conhecendo mais locais do que o previamente imaginado. Até o Hawaii, nunca pensado antes de sairmos do Brasil, ganhou nove dias de nossa presença.

Foram três meses no total, intercalando meu trabalho no Brasil com os consórcios e investimentos imobiliários executado através da internet, passeios nos momentos em que o fuso horário não permitia o trabalho no Brasil, e viagens por outras cidades e estados, incluindo Reno, Lake Tahoe, Grand Canyon, Las Vegas, San Diego, Los Angeles, Santa Barbara, San Simeon e o Hearst Castle, Carmel e Monterey, Santa Cruz, Half Moon Bay e o Ritz-Carlton, Berkeley, Emeryville e a sede da Pixar, voltando ao coração do Silicon Valley com Sunnyvale, Mountain View, Palo Alto, Santa Clara e San Jose, não esquecendo, claro, de San Francisco, onde assistimos não apenas a ópera O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, mas também a famosa Parada Gay, para finalmente embarcar rumo ao Hawaii e então voltar para o Brasil. Um período sabático relativamente curto, mas bastante bem aproveitado. Tendo curiosidade sobre a viagem, publicamos os detalhes em um blog exclusivo para isso em http://viagemperuzzo.blogspot.com.br/

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O Hawaii é simplesmente fantástico. Eu, que não sou dos maiores fãs de praia, simplesmente amei tudo por lá. Foi o único lugar em que realmente tirei férias de verdade, daquelas de não fazer nada, cercado pela beleza mais deslumbrante que poderia haver e com a civilização e todos os seus confortos sempre a disposição. Os mesmos shopping centers e lojas encontrados em todo lugar nos Estados Unidos estão presentes também no Hawaii.

O povo local é absolutamente amável, adorando sua cultura e sua história. Andando na rua, mais de uma vez fomos abordados por locais que perguntavam se estávamos gostando da ilha, se já tínhamos visto isso ou aquilo, dando orientações de como chegar nos melhores locais. E da mesma forma que nos abordavam para conversar, se despediam e seguiam seu rumo, sem tentar nos vender coisa alguma, simplesmente felizes de poder indicar algo interessante para conhecermos.

Os turistas no Hawaii são em sua absoluta maioria japoneses. A viagem do Japão para o Hawaii é de 7 horas. Da Califórnia para lá é de 5 horas, então em termos de distância, não é essa a explicação para tal invasão nipônica. O fato é que tudo lá possui indicação em japonês junto com as orientações em inglês. Em alguns locais há somente indicações em japonês. Dos hábitos curiosos dos turistas japoneses o mais “diferente” dos nossos é o fato de irem para praia completamente cobertos, com mangas compridas, calças compridas, muitas vezes blusas com capuz cobrindo a cabeça e sempre com toalhas ou algo protegendo a pele não coberta por roupas do sol.

Pensando em um lugar onde o clima é sempre bom, o povo amável, há diversas opções de lazer e a beleza natural é indescritível, não conheço lugar melhor que o Hawaii para uma temporada espetacular.

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Certas coisas não deveriam acontecer, mas infelizmente acontecem, e nos pegam completamente desprevenidos, nos deixando sem ação. Aquela frase de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, MENTIRA! Ainda estávamos nos Estados Unidos quando veio a notícia: minha prima, com pouco mais de 40 anos, teve detectado um câncer. Faleceu em 62 dias, logo após termos voltado. Já ter passado por isto uma vez não nos prepara para repetir a dose. Tudo é revisto quando nos damos conta de como é frágil a linha que nos mantém aqui. Falei sobre isso em um vídeo que publiquei logo após o acontecido.

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Voltamos ao Brasil dia 31 de agosto. Assinamos a venda do apartamento dia primeiro de setembro pelo valor que estávamos pedindo originalmente, sem choro, sem descontos. O lucro com este negócio foi o rendimento do valor que havíamos pago pelo imóvel, mais o fato de termos morado “de graça” ao longo dos três anos em que ficamos lá. O comprador também fez um excelente negócio, por isso não pechinchou. Comprou um apartamento gigantesco na melhor região da cidade por um valor ínfimo perto do que estava sendo pedido por apartamentos semelhantes. Só viríamos a descobrir isso depois de ter assinado a venda…

Vendemos, mas não tínhamos onde morar. Hora de procurar um novo apartamento. E aí é que estava o problema, os preços, nos meses em que estivemos fora, simplesmente dispararam de maneira fora do comum. Não havia mais imóveis na faixa de valores que tínhamos a disposição. Todos que procuramos e olhamos eram absurdamente piores do que o nosso antigo apartamento. E todos muito mais caros! Um início de depressão começou a se instalar em nós. Tínhamos prazo para entregar o apartamento e uma pequena esperança de encontrar algum lugar para morar antes da próxima viagem já marcada, para Cancun e Miami como prêmio da Rodobens pela performance em vendas durante o ano.

Perdidos entre procurar apartamentos para comprar ou alugar, acabamos não achando nem um nem outro. Na última hora conseguimos uma solução paliativa, com amigos/parentes que recém haviam comprado um apartamento novo e não iriam se mudar imediatamente, nos disponibilizando o mesmo em um aluguel direto, sem contratos longos, por apenas dois meses que imaginávamos ser suficientes para conseguir finalmente achar um apartamento adequado para comprar. Oferecemos o dobro do que custaria o aluguel lá, mais ou menos o que custaria para alugar um apartamento muito maior, com o dobro do espaço, mas a conveniência de não ter um contrato de longa duração valia a pena o custo maior.

Se arrependimento matasse… E falo isso sobre a venda do apartamento enorme e do aluguel caro e por pouco tempo do apartamentinho novo. Em ambos casos desobedeci minhas próprias regras, de não me desfazer de patrimônio já conquistado e de não pagar mais do que valem as coisas (no caso do aluguel).

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Sair de 162 metros quadrados para apenas 49 é complicado. Mais complicado é mudar para um apartamento que ainda não havia sido completamente entregue. Não havia pia na cozinha, então tínhamos o tanque para lavar a louça. Não havia espaço para nossos móveis, muito grandes para o novo espaço. Conseguimos a garagem de um amigo para deixar sofás, armários e outros móveis grandes. Tínhamos todas nossas caixas ocupando o quarto maior do apartamento, sem espaço para circular no mesmo. No quarto menor coube nossa cama de casal, sobrando 20 cm de cada lado. Não havia espaço para fechar a porta, pois a cama trancava o curso da mesma.

Não tínhamos fogão. O gás neste prédio novo vem direto do gasoduto, uma novidade em Porto Alegre. O fogão precisava de uma adaptação para funcionar com a menor pressão do gás natural que vem desta forma. A Sulgas, empresa responsável pela comercialização, faz esta adaptação sem custos, mas apenas com dia e hora marcados previamente. Somente em um dia da semana, marcado na semana anterior. Com a viagem para Cancun e Miami no meio deste período, se fizéssemos a adaptação, seria para apenas duas semanas, tendo que desfazer depois, com custo, quando desocupássemos o apartamento. Aprendemos a cozinhar com uma panela/grill elétrico, a usar mais o forno de microondas e a comer fora com maior regularidade.

Algumas semanas depois o pessoal que iria entregar os móveis da cozinha, área de serviço e banheiro foram lá instalar tudo. Retiraram o tanque original que estava nos servindo de pia para instalar o armário onde ficaria um tanque de alumínio. Retiraram a pia do banheiro e instalaram o armário lá. Neste momento não tínhamos mais tanque, nem pia da cozinha, que nunca havíamos tido, nem pia no banheiro. Sem o tampo de pedra dos móveis, adaptei a pia solta que haviam deixado no banheiro com a torneira que havia sobrado da pia antiga que haviam levado embora.. Então nossa vida agora dependia de uma pia bamba no banheiro para escovar os dentes, e também para lavar a louça.

Quando chegou a vez de entregar o tampo de pedra das pias e do tanque, mais um problema. O local onde ficava a máquina de lavar teria uma bancada de pedra no lugar da máquina. Os proprietários pretendiam comprar uma máquina de lavar com porta frontal e a nossa era com abertura superior. No final das contas um cano que deveria ficar abaixo de onde seria instalada a bancada estava acima da mesma, tendo que quebrar a parede e refazer a posição. Isso ficou para depois da nossa saída, então ainda tínhamos a máquina de lavar roupas funcionando.

A situação estava complicada. Não dá para esquecer que junto de toda esta bagunça nas rotinas do dia a dia, também estávamos sem acesso decente à internet. Não havia como contratar a internet que queríamos no bairro onde estávamos e a que não queríamos, mas que resolveria a situação paliativamente, tinha um contrato de dois anos que não fazia sentido assinarmos.

Complicava ainda o fato de não estarmos encontrando um apartamento para comprar com o valor que havíamos recebido pela venda do nosso. Sei que tudo que sobe, uma hora desce, ou ao menos deixa de subir e o dinheiro investido alcança o valor mais cedo ou mais tarde, mas a situação estava emocionalmente complicada. E com emoção, não há razão que resolva.

Foi um período complicado. Mesmo.

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Mais um ano como representante categoria Diamante na Rodobens e mais uma vez, uma viagem internacional para a convenção anual de premiação. Em 2010 havia sido Paris, 2011 era Cancun e Miami. Viajar no meio da bagunça que estava nossa vida pessoal não foi o melhor momento, mas lá fomos nós mesmo assim. Seria interessante conhecer um lugar que todos falavam bem e no fundo queríamos ver se encontrávamos uma alternativa de praia tão boa, mas mais próxima do que o Hawaii.

Cancun tem águas lindas e quentes, mas não conseguimos conhecer direito as coisas por lá. Em parte, tínhamos a programação da Rodobens a nos tomar algum tempo, afinal era um misto de prêmio com trabalho, mas o maior problema foi o clima não ter ajudado. Mudanças climáticas enormes fizeram um furacão passar por lá justamente no dia que teríamos livre, com direito a quartos alagados e tudo mais. Ficamos presos no hotel, com o exército na praia impedindo a circulação. No dia seguinte, tudo tranquilo, como se não houvesse havido nada, mas aí eu estava com uma dor de cabeça insuportável e fiquei dormindo no quarto do hotel. Dia perdido. De noite fomos ao restaurante Pericos, um restaurante com show local onde o próprio lugar é todo decorado com as famosas caveiras mexicanas, muitas cores e muita diversão. Temos que voltar, mas com mais tempo e com clima melhor.

Miami continua sendo Miami, um pedaço da América Latina encravado nos Estados Unidos. Pegamos dois dias de chuva, um deles inteiro dentro de um shopping center. Bom para a maioria dos representantes da Rodobens que estavam conosco nesta etapa da viagem, mas para nós, que vamos seguido para os USA e de onde havíamos acabado de voltar havia poucos meses antes, foi uma enorme perda de tempo. Valeu a pena a ida para Miami por ter conseguido achar e comprar o aparelho APAP que precisava para tratar minha apnéia do sono.

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Depois de visitar inúmeros apartamentos e descartar muitos mais diretamente pelas descrições das imobiliárias, finalmente colocamos os olhos no apartamento dos nossos sonhos pelo valor correto. Trocamos o espaço físico que tínhamos no apartamento antigo por uma estrutura de condomínio (piscinas, salão de festas, sala de ginástica, bosque, quadra de tênis, etc.). Permanecemos no mesmo bairro, a duas quadras de onde morávamos. Trocamos um segundo andar com vista para a rua e posição solar mediana por um oitavo andar com a melhor posição solar possível e uma vista simplesmente deslumbrante da cidade. A disposição das peças é ótima, perfeita para nossas necessidades. Simplesmente encontramos o apartamento que nos servirá tranquilamente pelos próximos anos, incluindo aí os filhos que pretendemos ter e todo o espaço para eles e crescerem com segurança e tranquilidade.

O parágrafo anterior foi escrito no final de 2011, logo após a compra do apartamento, ainda animados com o achado. Escrevo este parágrafo em abril de 2012, instalados aqui desde 28 de dezembro de 2011, mas ainda “acampando”, sem ter feito a reforma que gostaríamos, por ainda estar decidindo detalhes da futura decoração. As coisas estão bem complicadas ainda, emocionalmente falando. Parece que ainda não nos encontramos em relação às coisas. Estamos numa espécie de limbo emocional desde a venda do apartamento antigo. Espero que a reforma resolva esta questão.

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Foram muitos os sinais que recebemos indicando a necessidade de venda do apartamento em que estávamos. Apesar de grande, não estávamos completos ou tranquilos lá. Era ótimo, mas parecia não ser o local certo para nós. Com a venda e então a busca por alternativas, e a sequência de frustrações em encontrar algo que nos atendesse por valores factíveis, veio o medo de que tivéssemos feito o melhor negócio financeiro de nossas vidas, mas ao mesmo tempo, o pior negócio possível para o futuro da nossa família. A leve depressão que estava começando logo depois da venda do apartamento e a onda de imóveis fora das nossas possibilidades, potencializada com a mudança para a situação de “acampamento” do apartamento provisório que conseguimos estava começando a tornar a vida bastante insuportável.

Agora, com as coisas se normalizando, com o novo apartamento já comprado, faltando apenas alguns dias para nossa mudança para o novo lar e a tranquilidade voltando às nossas vidas, fico até um pouco envergonhado de escrever isso, porque penso: como posso entrar em depressão com alguma reserva de dinheiro no banco, os negócios e empresas andando bem, saúde em ordem e uma vida inteira pela frente? A questão é que nossa mente é algo que não sei explicar, e o fato é que a depressão, que neste momento já me parece completamente ridícula, há poucos dias atrás parecia o fim do mundo e o início de uma vida de privações sem fim, onde iríamos cada vez mais para o fim do poço.

Não sou ingênuo nem alienado, sei dos problemas do mundo, sei das dificuldades imensas que a absoluta maioria da população passa. Sei que gente passa fome, vive nas ruas. A idéia de ficar deprimido por “não ter onde morar”, podendo alugar qualquer imóvel com um estalar de dedos, agora me parece ridícula. Ainda assim, é exatamente desta maneira que estava me sentindo, deprimido, como se o mundo fosse acabar para minha família se a situação perdurasse por mais tempo.

Como li ainda hoje no twitter: “minha filha, pobre não tem direito a depressão, para poder ter direito a ficar deprimida tu tens que ganhar muito mais.”

No final das contas, esta situação toda serviu como um toque de humildade e empatia com algumas pessoas que me escrevem. Estando fora da situação que elas estão vivendo, muitas vezes penso: “como é que podem estar deprimidas, não vêem que não há motivos para isso, que as coisas podem estar um pouco piores do que estavam, mas em breve se resolverão. E que se não voltarem a ser tão boas como eram, ainda assim são completamente aceitáveis, sem dramas, afinal, têm um teto sobre suas cabeças, um emprego que paga as contas e um futuro inteiro pela frente”. E no final, vivendo algo do tipo, lá estava eu, deprimido com uma situação muitas e muitas vezes melhor do que a que eu mesmo vivia há poucos anos atrás.

Que esta experiência me deixe isso de lição: “não julgar nunca como os outros podem estar se sentindo, o que parece patético para nós pode ser bastante sério para quem está no meio do furacão, hoje eu sei disso, senti na minha própria pele.”

E que me deixe ainda a outra lição importante: nada é definitivo, tudo se resolve, mais cedo ou mais tarde, de uma forma ou de outra. Pode não voltar imediatamente ao mesmo patamar onde estávamos, mas as vezes, é preciso dar um passo para trás para então poder dar dois para frente.

Há quatro anos atrás eu tinha cinco vezes menos patrimônio do que tenho hoje, e a vida estava fantástica, cheia de possibilidades. Meu EU daquela época deve estar rolando de rir de mim agora. E deve estar me xingando muito, porque vou te contar, olha para a situação, coloca as coisas no papel, compara com alguns anos atrás. Um tombinho por um negócio aparentemente errado não pode tirar uma pessoa do prumo como me tirou nestas últimas semanas. E pior, com a compra do novo apartamento, não houve nem tombo nem tombinho, pelo contrário, houve uma evolução na vida, nas possibilidades e nas felicidades que estão por vir. Desculpa Fabrício de hoje, mas o Fabrício de quatro anos atrás com certeza está rindo de ti até agora. Isto é patético.

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Como escrevi no início, não tinha a intenção de publicar este texto, mas foi bom escrever tudo isso. Me ajudou a colocar as coisas novamente em perspectiva. Então publico para servir como exemplo de que viver é estar constantemente passando por experiências novas. E quando estas experiências parecem não ser as melhores, que este texto ajude a vislumbrar que dias melhores virão. Nunca acaba enquanto não termina. E só termina quando dizemos que terminou.

Sou feliz, e os momentos difíceis servem para testar a força que não sabemos ter até precisar contar com a energia que possuímos lá dentro de cada um de nós. Vencemos mais uma batalha. Na próxima, estaremos mais sábios e mais preparados.

Este foi meu ano de 2011. Como foi o seu?

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Continuo a escrever em abril de 2012. Os três primeiros anos foram bagunçados emocionalmente, as coisas ainda não estão bem resolvidas e a reforma que precisamos fazer no apartamento não está acontecendo ainda. Indecisões, indecisões. É o problema de ter muitas possibilidades, todas igualmente boas. A dor da escolha…

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Já nos negócios, os dois últimos meses foram os melhores que já tive em toda a história da Megacombo e de qualquer outra empresa que já possuí. Vendi três vezes mais do que minha média mensal, durante dois meses seguidos, com tendência a continuar assim ou até melhorar. Em paralelo a isso, tenho um projeto de negócio que pode alçar a vida a vôos ainda mais altos, muito mais altos. As coisas estão realmente muito boas na vida profissional. Deve ser aquela coisa de equilíbrio, de depois da tempestade vir a bonança…

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No próximo dia 22 mudamos para São Paulo. O apartamento em Porto Alegre permanece conosco, claro. Não cometeremos a mesma burrice de vender antes de termos outro, ou melhor, não nos desfazemos mais de patrimônio, só acrescentamos, sem tirar. Mas voltando para o assunto São Paulo… Nos mudaremos para testar algumas possibilidades comerciais. Tenho o projeto de negócio que citei antes, tenho os negócios com investimentos imobiliários e com investimento em consórcio que são minha especialidade, enfim, faremos um período sabático de pelo menos três meses, sem prazo definido para concluir, para ver como as coisas se comportam.

Em outras vidas devemos ter sido ciganos, porque vai gostar de mudanças assim sei lá onde… Como digo, cada mudança, cada nova experiência em que nos colocamos, mais temos a aprender. Mesmo as experiências ruins, talvez até mais estas, tem muito a nos ensinar.

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Era isso. Se você leu até aqui, parabéns pela paciência. Espero que este texto possa ter ajudado em algo. Obrigado pela atenção.

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