Por que vou vender meu iPad?

Enquanto estava morando nos Estados Unidos ao longo dos últimos meses, me deparei com um texto muito interessante do Peter Bregman em que ele explicava por que tinha devolvido o iPad pouco mais de uma semana depois de o ter comprado. O texto dele, em inglês, pode ser lido em “Por que devolvi meu iPad“.

A seguir descrevo meus motivos para pensar em vender o iPad. Muitos, são exatamente os mesmos que o Peter cita no texto dele, então se você leu o texto original, não estranhe as semelhanças. Sobre a originalidade das idéias, o texto do Peter é de junho deste ano, e eu já havia discutido este assunto com um amigo ainda em dezembro do ano passado, quando efetivamente vendi meu iPad original. O iPad que vou vender agora é um iPad 2, comprado para uso exclusivo enquanto morava nos Estados Unidos e precisava de uma conexão 3G sem plano de dois anos.

O principal motivo que me leva a pensar em vender o iPad 2 e em ter efetivamente vendido o iPad original que possuía não é um problema específico do equipamento. O principal problema é comigo. Eu carrego o iPad para tudo que é lugar. Faço isso dentro de casa e praticamente sempre que saio e imagino que possa haver algum motivo para usa-lo. Ele é pequeno, fino e leve, se estou com uma bolsa ou mochila para levar outras coisas que precise quando saio, ele está lá também.

Eu leio e respondo meus emails. Mesmo o teclado virtual na tela é bom o bastante para responder emails não tão longos. Eu escrevo alguns artigos diretamente nele, entre escrever no iPad e escrever no iPhone, não há comparação. As vezes penso em escrever apenas uma idéia, mas os pensamentos vão fluindo e quando vejo tenho um texto inteiro praticamente pronto. Eu leio as notícias, eu leio sites e blogs, eu tuito e acompanho o que meus amigos fazem no Facebook. E eu mostro o iPad para todo mundo que demonstre interesse. Mostro com orgulho, como se possuí-lo me colocasse em um time de vencedores. Não sei porque. Não o criei, apenas sou mais um dos milhões de usuários.

O problema do iPad é que ele é simplesmente muito bom. Ele é fácil, acessível. Muito fácil e muito acessível. Quando acordo, vou para a sala, sento na minha poltrona confortável e fico recebendo os raios de sol da manhã, para acordar bem. Enquanto isso, vejo as primeiras notícias do dia, o que aconteceu no twitter durante a noite, as últimas atualizações dos meus amigos no Facebook, suas fotos, o que leram e indicaram a leitura, centenas de novos artigos nos blogs que acompanho os RSS, meus emails (só leitura, para responder depois). E quando vejo, são 11h da manhã e ainda não fiz nada de produtivo, apenas li, reli, bisbilhotei, mas não escrevi, não respondi emails, não produzi.

Quando penso em fazer algo mais produtivo, sempre tem alguma coisa nova aparecendo em um dos diversos aplicativos do iPad. E quando não tem nada em nenhum deles, tem o processo de carregar cada um novamente, em rotação, para ver se alguma novidade surge de repente. E tem os vídeos, não vamos esquecer dos vídeos. Sejam os que coloquei no iPad para ver depois (e olha a oportunidade justamente neste momento), seja através do Youtube.

E o problema não termina na manhã. Alguma hora eu largo o iPad e o dia passa a ser produtivo. Quando entro neste fluxo de produção, é uma tarefa atrás da outra. Quando saio de casa e estou errante, emails são respondidos na fila do banco, cotações são verificadas enquanto aguardo minha consulta no oculista, um audiolivro é escutado ou alguns capítulos de um livro lidos enquanto tomo um café na padaria próxima do escritório. À noite, sempre dá para mais uma espiadinha no twitter antes de dormir, ou assistir um episódio de algum seriado já na cama. E quando vejo, lá se vão 2h da madrugada. Depois de algumas horas, estou entretido e cansado, mas estou melhor? Não seria melhor dormir sete horas em vez de cinco?

O fantástico do iPad é que ele é um dispositivo para toda hora, todo lugar. No ônibus, aguardando o elevador, no carro quando não estamos dirigindo ou aguardando o sinal abrir. Todo momento é uma oportunidade de usar o iPad. O iPhone pode fazer mais ou menos o mesmo, mas quem deseja assistir um filme na cama na telinha de um iPhone?

Então porque isto é um problema? Parece que sou superprodutivo. Cada minuto extra estou ou produzindo, ou consumindo informações. E aqui entra a parte que o Peter trouxe a tona em seu artigo e que não tinha me dado conta antes. Há uma coisa muito importante que estava perdendo com o uso do iPad. Algo crítico e valiosíssimo.

Tédio.

Daqui em diante, basicamente traduzo o texto do Peter Bregman, apesar de só traduzir o que funciona da mesma maneira para mim, usando meus exemplos pessoais.

Ficar entediado é algo precioso, um estado mental que devemos perseguir. Uma vez que estejamos entediados, nossa mente começa a viajar, procurando por algo excitante, algo interessante para focar. E é aí que a criatividade aparece. Minhas melhores idéias vem quando estou sem fazer nada. Quando estou caminhando pela rua, mas não estou ouvindo música no meu iPod. Quando estou esperando por alguém. Quando estou deitado na cama aguardando o sono chegar. Estes momentos “perdidos”, momentos sem nada específico sendo feito, são vitais.

Eles são os momentos em que nós, inconscientemente, organizamos nossas mentes, fazemos sentido de nossas vidas e conectamos os pontos. Estes são os momentos em que falamos com nós mesmos. E nos escutamos.

Perder estes momentos, substituí-los por tarefas e eficiência, é um erro. O pior é que não apenas os perdemos. Nós ativamente os jogamos fora.

“Este não é um problema do iPad”, os amigos dizem. “É um problema contigo. Simplesmente não o use tanto.”

É isso. O problema é comigo mesmo. Eu não consigo não usá-lo se ele está alí, disponível. E infelizmente, ele está sempre ali. Então eu o vendo. Problema resolvido.

O bom de ter passado por isso é que o iPad me ensinou o valor do tédio. Claro que já tinha lido isso e me identificado com muitas das idéias do livro “O Ócio Criativo”, do Domenico de Masi. Por mais que a leitura tenha sido boa, a experiência prática sempre nos marca mais forte. E agora estou mais consciente em usar estes momentos extras, o tempo entre as coisas, o tempo da caminhada, do ônibus e da espera, para deixar minha mente viajar. Viajar e criar.

10 pensamentos em “Por que vou vender meu iPad?”

  1. Estamos cada vez mais impacientes e menos sociaveis,sempre futricando nos smart phones/tablets.Culpa nossa,sim,mas é dificil resistir!

    1. Poxa Fiapo, a idéia é justamente conseguir ter alguns momentos de tédio. Um filho seria ficar sem os momentos de fazer nada, e sem o consumo das informações ao mesmo tempo 🙂

  2. iPad e iPhone são exemplos, mas não dá para descartar também TVs, notebooks , PCs e outros do gênero pela falta de tédio em casa…

    Pois com eles tu nunca fica sem ter o que fazer, aí nunca tem tempo de pensar em novas idéias ou mesmo refletir sobre o que se passa em volta…

  3. Aff, eu queria ouvir alguma critica para pensar um pouco antes de comprar o iPad, só fiquei mais desesperado para conseguir um ^^.

    1. Oi Carlos,

      É, não posso te ajudar com críticas, o iPad é realmente bom demais para o que se propõe. Tendo interesse, o que trouxe dos USA nesta última viagem está a disposição. Me manda um email que acertamos a venda 🙂

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