Os investimentos de um taxista esperto

Sueli Vital, P-NEWS

25 de abril, 2001

A aventura de pegar um táxi no Rio de Janeiro, partindo do Aeroporto Santos Dumont com destino à Barra da Tijuca, tinha tudo para se tornar insuportável pelo enorme congestionamento, mas foi salva por uma conversa fantástica que mais parecia uma aula de mercado de capitais com Jairo Arruda – o motorista do táxi.

Meu dileto condutor de 55 anos de idade – 20 deles passados em seu táxi – nunca compra nada a prazo.

“Quando me casei, quebrei o cartão de crédito de minha esposa. Jamais gasto o que não tenho e não pago juros para ninguém. Compro tudo à vista. Me privo de algumas coisas, mas durmo tranqüilo por não estar devendo a ninguém”, diz Arruda.

O taxista contou que viajava para o exterior todos os anos, quando nossa moeda estava forte. Seus colegas não entendiam como ele conseguia a façanha, algo impensável para eles.

“É muito simples: enquanto vocês pegam R$ 15 mil na financeira, pagam no mínimo R$ 25 mil no final das contas. Este é o dinheiro que eu economizo e uso para viajar”, explicava para os atônitos companheiros.

Hoje Jairo é um investidor que diversifica seu portfólio em nada menos que Fundos DI e ações do setor de telecomunicações e energia elétrica.

“Comprei agora, na baixa, e consegui, por sorte, vender as ações que estavam em minha carteira na alta. Neste mercado, é preciso ficar de olho, mas, às vezes, a sorte também decide”, avalia.

“Para saber se estou comprando um mico ou uma ação que a longo prazo me dê bons retornos, avalio se a empresa é sólida e verifico se há risco de quebrar”, diz ele.

Porém, em sua história nem tudo são flores.

“Há alguns anos, comprei ações da Arapuã, que foi a the best da bolsa. Ela chegou a bater em R$ 28 e eu comprei 10 milhões de ações por R$ 0,30. Mas ela entrou em concordata e não é mais nem negociada no pregão. Se a Arapuã se levantar e voltar a ser negociada, acredito que seu preço mínimo será de R$ 1. Aí, triplicarei meu capital”, diz, esperançoso.

Resta saber se a Arapuã voltará a ser negociada, quanto tempo isto ainda demorará e se realmente sua cotação será de, no mínimo, R$ 1.

Para Arruda, existem muitos patos na bolsa, que entram e saem sempre no prejuízo e que não sabem lidar com a ganância e o medo.

“Quando você compra uma ação e ela sobe, muitas vezes as pessoas não vendem movidas pela ganância, esperando uma alta maior. Aí, ela cai e o pato vende. Por outro lado, quando as pessoas começam a ter prejuízo, vão segurando a ação na esperança de que ela reaja e ela vai caindo mais ainda até que o pato vende com um prejuízo maior do que o inicial”, conclui o investidor.

Na opinião do motorista, quem conseguir dosar estas duas forças é um bom especulador.

Arruda tem uma teoria: é apanhando que se aprende.

“São experiências de anos. Você entra na bolsa, leva uma surra e sai depois de seis meses feito um cachorro magro. Pode ir embora e não voltar mais. Mas, se souber perder e ganhar, você continua e vale a pena”, ensina.

Ele finaliza dizendo que, com a caderneta de poupança rendendo cerca de 8% ao ano, muito abaixo do rendimento do Ibovespa e do Dow Jones nos últimos 10 anos, quem investe em ações tem de pensar a longo prazo.