Diferença entre ativos e passivos

Filha amada, papai escreve hoje para começar a te contar tudo que ele aprendeu sobre dinheiro, investimentos e formação de patrimônio. Espero que estas cartas sirvam de guia caso queiras fazer tudo por conta própria, ou de manual, para o caso de simplesmente manter saudável o patrimônio que pretendo deixar para ti.

A primeira coisa que acho importante saber é a diferença entre ativo e passivo, não no sentido da contabilidade, mas sim na forma simplificada com que Robert Kiyosaki descreve em seu livro Pai Rico, Pai Pobre.

Ativo é tudo aquilo que coloca dinheiro no nosso bolso, enquanto passivo é tudo que nos faz gastar dinheiro para manter ou possuir.

Um apartamento pode ser tanto um ativo quanto um passivo. O apartamento onde moras, a casa de praia para onde vamos no verão, são passivos, nos custam para manter e usufruir. Já um apartamento em que recebemos o aluguel, ou uma casa de praia que alugamos na alta temporada ou nas datas festivas, gerando mais renda do que os custos de manutenção, são ativos.

O carro que usamos no dia a dia é um passivo, nos traz custos com gasolina, manutenção, seguro, lavagem, estacionamento. Um carro que colocamos para rodar com motorista, como Uber ou Cabify, é um ativo, gera renda mensal acima dos custos. (Na verdade esse carro seria mais como um negócio, pois é necessário um gerenciamento e contas a fazer para fechar com saldo positivo, mas no final das contas, todo investimento é uma espécie de negócio.)

Investimento do tipo em ações de boas empresas pagadoras de dividendos, títulos públicos ou privados, fundos de investimento e coisas desse tipo, são ativos, pagando juros ou dividendos com regularidade, valorizam ao longo do tempo. Já um barco, uma moto, um título de clube, são passivos, geram custos mensais e perdem valor ao longo do tempo a medida em que deterioram. Uma moto, um barco, ou um carro, perdem boa parte do valor que possuem quando novos no exato momento em que saímos da loja.

É importante frisar bem a diferença, pois compreendendo isso, a parte financeira da vida fica absolutamente simples.

Explico um pouco mais, porque a maioria das pessoas confunde essas coisas. O que pensam é que qualquer bem, um carro, um apartamento, uma máquina fotográfica de qualidade, por possuírem um valor associado a eles, são ativos. E aí é que está o erro, tentar usar a definição contábil de ativo, e não o resultado real que ele nos traz. Todas essas coisas perdem valor ao longo do tempo, e se nos trazem um custo de manutenção, perdem ainda mais, pois temos que contabilizar essa saída regular de dinheiro.

A maioria das pessoas não enriquece, ou pior, nem conseguem pagar as contas do dia a dia, entrando no negativo, devendo no cartão de crédito, tendo que comprar tudo parcelado, simplesmente porque priorizam a aquisição de passivos em suas vidas. E não quero dizer aqui que não seja bom ter casa na praia, apartamento em Paris, carro esporte, moto ou barco para passear nos fins de semana, um clube para frequentar com a família e amigos… Tudo isso é ótimo, só não é sustentável se forem a prioridade na vida.

Tem uma frase que gosto muito que diz assim:

Podemos ter tudo que quisermos, só não podemos ter tudo ao mesmo tempo.

Em parte concordo com esta frase, mas não totalmente. Explico com outra frase, esta de minha autoria:

Podemos ter tudo que quisermos, desde que priorizemos a aquisição de ativos que nos permitam, com seus rendimentos, adquirir os passivos que desejamos possuir ou usufruir.

A frase acima poderia terminar esta carta, mas como gosto de escrever, vou continuar.

Ao priorizar a aquisição de ativos estamos, por um lado, postergando a aquisição daquilo que realmente desejamos para nosso usufruto. Se temos as condições necessárias para comprar uma casa na praia, ao optar por comprar um apartamento para alugar, postergamos a compra da casa da praia que é o que realmente desejávamos.

Por outro lado, com os rendimentos dos aluguéis de nosso apartamento recém adquirido, podemos pagar por férias onde quisermos. E se realmente desejamos possuir uma casa só nossa na praia, e veranear todos os anos no mesmo lugar, ter o nosso cantinho particular de férias, os aluguéis do nosso ativo, o apartamento que nos paga aluguel todos os meses, podem ser usados para financiar esta aquisição. Nosso ativo paga por nosso passivo.

Ao priorizar a aquisição de ativos como no exemplo acima, terminamos com dois bens em vez de um. Temos o ativo que nos gera renda sem precisarmos trabalhar, e temos o passivo que consome esta renda, mas nos dá a diversão sem precisarmos do suor de nosso trabalho para mantê-lo.

Este é o poder que uma simples mudança mental de prioridade pode nos trazer. A idéia simples, trivial até, de priorizar adquirir ativos que nos gerem renda em vez de passivos que consumam tudo que ganhamos com nosso trabalho, é a chave para podermos ter, agora sim, tudo que desejarmos, ao mesmo tempo. Pensar em ativos que possam financiar os passivos que desejamos é o que nos permite ter o que quisermos, sem precisar trabalhar mais para conseguir isto.

E funciona como uma bola de neve, porque ao priorizar a aquisição de ativos que nos geram renda, estas rendas vão se somando para sempre. Por outro lado, os passivos que consomem estas rendas extras são limitados, simplesmente não temos tempo para fazer tudo. Então, provavelmente depois de passada a novidade, possamos vender um ou outro passivo que pensávamos desejar, mas que na verdade não nos trazem tanta satisfação assim, usando o dinheiro obtido com esta venda na aquisição de mais um ativo que aumenta nossa renda mensal.

Um exemplo prático para ilustrar o parágrafo anterior são as duas alegrias de possuir um jipe.

Sempre quis ter um jipe antigo, aqueles Willys tradicionais dos anos 60. Em determinada fase da vida comprei um, levei no mecânico, arrumei o que precisava arrumar, saí para passear, desfilei pela cidade com meu jipe reformado. Seguido quebrava alguma coisa, mas voltava para a oficina e tudo era resolvido. Passava mais tempo na oficina que passeando. E mais que isso, não trazia a grande satisfação que eu pensava que teria, a novidade cansou cedo. Me dei conta que gostava muito mais de motos. Antes do jipe tinha uma Harley Davidson, e não é que não pudesse manter os dois, mas simplesmente não havia porquê, já que só tinha tempo de passear com um deles a cada fim de semana. Ao escolher sempre a moto e nunca o jipe, a decisão ficou fácil.

Um jipe então me proporcionou duas alegrias. A primeira, quando o comprei. A segunda, quando vendi 🙂

E assim, um passivo que só me dava despesas se transformou em cotas de um fundo de investimentos que me rende frutos todos os meses desde aquela época.

Vou terminando esta carta por aqui, reforçando o conceito uma última vez.

Ativo é tudo aquilo que coloca dinheiro no nosso bolso.

Passivo é tudo que nos traz despesas.

Priorizar a aquisição de ativos para que eles, então, paguem pelos passivos que desejamos possuir, é a chave para a riqueza.

Um beijo enorme, filha. E muita riqueza na tua vida.

Do papai que te ama.

 

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